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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Amor Patológico, Quando o amor devora e cria a Dependência do Outro!


O amor patológico tem origem na relação da mãe com o filho e em sua disponibilidade para suprir as necessidades emocionais da prole em situações estressantes, principalmente em casos de separação.

A pessoa que experimenta o amor patológico dirige toda a sua atenção à pessoa amada, desdobrando-se em cuidados e gentilezas. Esse comportamento desencadeia uma postura obcecada.




Controle e dependência

"Nossa experiência clínica tem mostrado que a pessoa com amor patológico presta cuidados ao parceiro, mas com o intuito de obter afeto, sem respeitar as necessidades e interesses do outro, muitas vezes com atitude crítica quando não recebe o esperado, contrariamente ao conceito de cooperatividade, que inclui ajuda desinteressada, tolerância e empatia social", diz Eglacy.

O seu estudo mostrou que pessoas que sofrem de amor patológico também têm dificuldade de estipular metas e de se manter focado nelas. "Isso ocorre porque o foco principal de sua vida é manter o parceiro sob controle, porque necessita da sua atenção", diz Eglacy. As principais estratégias utilizadas para controle são ligações telefônicas, seguir o parceiro, interrogar sobre as atividades dele, ser extremamente atencioso para com as necessidades dele e provocar ciúme.

Há quem diga que o medo é a essência desse amor. A pessoa foge da sensação de isolamento tornando-se parte de outra. Alguns estudos mostram que as reações químicas observadas no cérebro daqueles que vivenciam o amor patológico seriam muito parecidas àquelas encontradas em pessoas que sofrem de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), uma alteração de comportamento que faz com que a pessoa tenha pensamentos persistentes de medo e ansiedade. Para aliviar o mal-estar, ela costuma realizar tarefas ou gestos repetitivos, como se desdobrar em cuidados dirigidos à pessoa amada.



Tudo indica que a disponibilidade emocional da mãe em situações estressantes, principalmente separações, é o meio pelo qual a criança aprende a perceber e a se relacionar com o mundo. 
A maioria dos pesquisadores, no entanto, defende que o amor patológico se assemelha à dependência por drogas ou álcool. A pessoa experimenta uma sensação de abstinência quando está longe da pessoa amada, gasta muito tempo e energia em cuidados, abandona atividades para cultivar esse amor, sua dedicação exagerada traz problemas para a pessoa que ama e também para a pessoa amada.



"Embora alguns autores comparem os sintomas do amor patológico aos pensamentos repetitivos do TOC, nossos estudos têm demonstrado que as pessoas com amor patológico apresentam critérios semelhantes à dependência, como cuidar do parceiro mais do que gostaria, as tentativas de diminuir esse comportamento são insatisfatórias e sinais e sintomas de abstinência quando há ameaça de abandono", explica Eglacy. Ela lembra que a alta impulsividade encontrada no amor patológico se assemelha aos demais transtornos do impulso, como jogo patológico, por exemplo.

Descargas biológicas

Para quem sofre de amor patológico, o objeto de desejo torna-se uma prioridade, enquanto os outros interesses ficam em segundo plano. O outro é sempre mais importante. Segundo Eglacy, o estado de exaltação desse amor provocaria fortes descargas de adrenalina, o que pode explicar o estado de constante euforia. As sensações experimentadas por quem vive esse tipo de amor são semelhantes à provocada por altas doses de (*) anfetamina. Isso acontece porque o amor produz sua própria substância, a feniltilamina. Ela também estaria presente no chocolate, o que explica por que algumas pessoas que vivem uma perda gostam de se empanturrar de chocolate.

Um estudo verificou que, independentemente da cultura, a reação cerebral dos apaixonados é a mesma: ao ver fotos do ser amado, se "acendem" algumas partes do núcleo caudado do cérebro, estrutura que regula a sensação de recompensa. São zonas ricas em dopamina, neurotransmissor que age no cérebro promovendo sensação de motivação e prazer, e endorfina, que desperta sensação de bem-estar e euforia. "O fenômeno é semelhante ao que ocorre com dependentes químicos e jogadores patológicos diante da droga de escolha”, exemplifica a psicóloga.

Mas quem sofre mais de amor patológico?
Foram identificadas divergências em várias culturas: na população americana, as mulheres com essas características superaram os homens, e entre os japoneses e russos, as atitudes de amor patológico prevaleceram no sexo masculino.







O problema é que as pessoas que vivem o amor patológico só buscam ajuda profissional quando perdem o parceiro. E quando isso acontece, eles têm em mente mudar algo em seu comportamento para agradar o parceiro na esperança de assim ele voltar. Nesse sentido, os programas de recuperação como DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) e MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) podem ajudar na superação do problema. Esses grupos de apoio procuram recuperar comportamentos compulsivos e que envolvam a dependência por sexo, relacionamentos românticos, fantasias e anorexia sexual. Os voluntários seguem doze passos, nos mesmos moldes dos Alcoólicos Anônimos, e partem do princípio de que o primeiro passo para a recuperação é reconhecer a origem do seu comportamento desajustado.

Segundo a pesquisa realizada por Eglacy, 22% das pessoas com amor patológico não têm qualquer transtorno psiquiátrico, o que mostra que esse quadro pode surgir isoladamente. Outro achado é o alto risco de suicídio identificado em 28% deles (o que mostra um perfil mais voltado para a auto agressividade do que para a agressão ao sexo oposto). Também houve maior prevalência de depressão e de transtornos ansiosos. Apenas 8% apresentaram TOC. E, ao contrário do que se pensava, não existe uma correlação entre amor patológico e intensidade de amor (amor excessivo), mas sim a persistência num amor que não dá certo e gera sofrimento.

Critérios para diagnóstico de amor patológico





1) SINAIS E SINTOMAS DE ABSTINÊNCIA
Quando o parceiro está distante (física ou emocionalmente) ou perante ameaça de abandono, podem ocorrer: insônia, taquicardia, tensão muscular, alternância de períodos de letargia e intensa atividade.

2) O ATO DE CUIDAR DO PARCEIRO OCORRE EM MAIOR QUANTIDADE DO QUE O INDIVÍDUO GOSTARIA
O indivíduo costuma se queixar de manifestar atenção ao parceiro com maior frequência ou período mais longo do que pretendia de início.

3) ATITUDES PARA REDUZIR OU CONTROLAR O COMPORTAMENTO PATOLÓGICO SÃO MAL SUCEDIDAS
Em geral, já ocorreram tentativas frustradas de diminuir ou interromper a atenção despendida ao companheiro.

4) EXCESSIVO DISPÊNDIO DE TEMPO NO CONTROLE DAS ATIVIDADES DO PARCEIRO
A maior parte da energia e do tempo do indivíduo são gastos com atitudes e pensamentos para manter o parceiro sob controle.

5) ABANDONO DE INTERESSES E ATIVIDADES ANTES VALORIZADOS
Como o indivíduo passa a viver em função dos interesses do parceiro, as atividades propiciadoras da realização pessoal e profissional são relegadas, como cuidado com os filhos, atividades do trabalho e convívio com colegas.

6) O AMOR PATOLÓGICO É MANTIDO, APESAR DOS PROBLEMAS PESSOAIS E FAMILIARES
Mesmo consciente dos danos resultantes desse comportamento para sua qualidade de vida, persiste a queixa de não conseguir controlar tal conduta.















(*) As anfetaminas são drogas estimulantes da atividade do sistema nervoso central, isto é, fazem o cérebro trabalhar mais depressa, deixando as pessoas mais “acesas”, “ligadas” com “menos sono”, “elétricas”, etc. É chamada de rebite principalmente entre os motoristas que precisam dirigir durante várias horas seguidas sem descanso, a fim de cumprir prazos pré-determinados. Também é conhecida como bolinha por estudantes que passam noites inteiras estudando, ou por pessoas que costumam fazer regimes de emagrecimento sem o acompanhamento médico.

Fonte: Amor patológico: um novo transtorno psiquiátrico, de Eglacy Cristina Sophia, Hermano Tavares e Mônica Zilberman


sábado, 14 de junho de 2014

Depressão Anaclítica - efeito que a ausência de uma relação materna pode provocar nas crianças

Fala-se de depressão anaclítica quando um estado depressivo se inicia nos primeiros meses de vida. Ocorre em bebes entre os 6 a 18 meses de vida e deve-se a uma separação prolongada da mãe. Esta separação pode ter consequências irreversíveis na criança se não houver reencontros com a mãe após 3/4 meses de separação.




Foi inicialmente estudado por René Spitz. Pode ocorrer, posteriormente, na infância, na adolescência ou na idade adulta, simplesmente pela existência de uma dependência emocional. Assim, quando os apoios são retirados surge a depressão, cria-se o que se chama um caráter "oral", o que significa que as suas necessidades infantis de ser carregado, aceito, de ter experiências de contacto corporal e calor não foram satisfeitas. Este colapso, às vezes, é tido como um retorno a um estado infantil, uma regressão e, com o tempo, muitas pessoas recuperam espontaneamente por terem a possibilidade de vivenciarem as experiências suprimidas.

Alguns psicanalistas afirmam que todos os depressivos têm necessidades orais insatisfeitas. É o mesmo que dizer que estes sujeitos foram privados do amor da mãe ou da satisfação de um amor seguro e incondicional. Na pessoa adulta estas necessidades manifestam-se na inabilidade em ficar sozinho, no medo da separação, uma vulnerabilidade à separação e numa atitude dependente.



O problema é que estas necessidades orais da infância não podem ser saciadas na vida adulta, pois nenhuma quantidade do que chamaríamos de substituição maternal pode dar à pessoa a segurança que ela não teve na infância. O adulto deve procurar esta segurança dentro de si. Este vazio deixado por uma educação maternal ou paternal negligente não poderá ser preenchido na fase adulta pela busca incessante de atenção, admiração, mas somente através do autoconhecimento, da busca pelo amor ou pela dedicação a um objetivo de vida.

René Spitz
Psicanalista austríaco, nascido em 1887 e falecido em 1974, formou-se em Medicina tendo-se especializado em psicologia infantil. Vai para os Estados Unidos da América onde ensina Psicologia de orientação psicanalítica em Nova Iorque e depois Psiquiatria na Universidade do Colorado. Desenvolve estudos experimentais sobre as trocas emocionais entre a criança e a mãe. Considera que o sorriso, que ocorre entre as seis e as doze semanas, é a primeira manifestação intencional desenvolvida na comunicação mãe/bebé. Estudou o efeito que a ausência de uma relação materna pode provocar nas crianças. Analisou esta situação em crianças órfãs ou abandonadas, criadas em asilos e orfanatos, tendo designado por "hospitalismo" a depressão resultante desta situação de abandono. Para além das obras escritas, das quais se pode destacar Le Non et le Oui, Spitz produziu cerca de cinquenta filmes documentando as suas pesquisas.










           











René Spitz. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-10-29].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$rene-spitz>.

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