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terça-feira, 18 de outubro de 2011

TPM, ninguém merece!


Veja como minimizar a irritação e os desconfortos desse período tão delicado com dicas de automassagem, aromaterapia, chás de ervas, florais e cuidados com a alimentação.

Cerca de 400 vezes durante a vida, o organismo feminino se mobiliza para gerar uma criança. A taxa de hormônios sobe, ocorre a ovulação e o útero fica pronto para receber o óvulo fecundado. “Se a fecundação não acontece, os índices hormonais caem de repente”, explica o endocrinologista carioca Tércio Rocha. Resultado: a Síndrome da Tensão Pré-Menstrual chega para virar do avesso, o corpo e a cabeça da mulher, que só se vê livre do inchaço, da dor de cabeça e da irritação (muitas vezes insuportável para si mesma e para as outras pessoas) quando a menstruação, finalmente, começa.

Hormônios à parte, fatores externos como: problemas conjugais, dificuldades econômicas, doenças na família, pressão no trabalho e estresse, podem agravar ou mesmo desencadear esses sintomas. Mas, como hormônios e problemas todo mundo tem, o que conta de verdade é o que cada um faz para manter a calma e o bom astral frente às dificuldades.

Os três especialistas dão as chaves para amenizar os sintomas emocionais da TPM: ter pensamentos otimistas, conversar para aliviar a tensão, fazer algo por outras pessoas, manter a vida sexual ativa e não exigir demais de si mesma. Além disso, alguns cuidados com o corpo, orientados por medicina chinesa, práticas de automassagem, aromaterapia, fitoterapia e florais, ajudam muito a ter mais disposição e equilíbrio nesse período.

Alimentação
Consumir álcool, sal e açúcar refinado em excesso favorece a retenção de água no organismo, o que aumenta o inchaço típico da TPM. O melhor é evitá-los. O mesmo vale para as gorduras, que agravam os sintomas em geral. Já, o consumo de leite desnatado e derivado light, tem sinal verde, pois o cálcio reduz os sintomas da TPM. O mesmo vale para alimentos ricos em manganês (legumes, castanhas e grãos integrais) e magnésio (cereais e vegetais verdes), que diminuem a irritação. Cereais e legumes são uma importante fonte de vitamina B6, fundamental para a produção da serotonina – um neurotransmissor que garante a boa disposição. Arroz e outros cereais integrais também são bem-vindos. Para evitar os acessos de gula típicos da TPM, faça várias pequenas refeições ao longo do dia, com intervalos de cerca de três horas entre elas.

Fitoterapia
Para aliviar a tensão física, mental e emocional provocada pela TPM, a Fitoterapêuta e Bioquímica catarinense, Selmira Dieprich, que também é farmacêutica homeopata, recomenda chá de hortelã, de prímula (só uma folha ou um pedacinho do caule), das folhas da pimenteira ou da raiz do dente-de-leão, que fortalece o útero. Escolha um deles quando sentir a TPM chegando e beba ao longo do dia, até três xícaras no total. Outra dica para ajudar no relaxamento físico e emocional é o extrato ou a tintura de valeriana (cinco gotas num pouco de água, três vezes ao dia).

Automassagem
O shiatsu é uma técnica de massagem que veio do Japão, mas é baseada nos princípios da medicina chinesa. Defende que nosso bem-estar depende do bom fluxo de energia por caminhos que percorrem o corpo todo – os meridianos. Qualquer bloqueio pode gerar dor ou se transformar numa doença. “A massagem reequilibra a energia do órgão relacionado a cada ponto, melhorando a saúde física, mental e emocional. Porém não é indicada quando o fluxo menstrual é abundante ou durante a gravidez”, diz Daniel Luz, shiatsu-terapeuta e acupunturista da equipe de medicina tradicional chinesa do Instituto de Medicina Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ele ensina o jeito certo de fazer a automassagem: “Toque em pontos nas duas mãos e em ambas as pernas. Massageie cada um deles durante um minuto, com movimentos circulares, no sentido horário e com bastante pressão. O ideal é realizar a série três vezes por semana”. Para aliviar a TPM massegeaie esses quatro pontos-chave:

1. Ponto he gu, na base do V formado pela junção do indicador com o polegar.





2. Ponto tai chong, abaixo da base do dedão do pé, no V entre o dedão e o primeiro dedo, onde é possível sentir a pulsação.





3. Ponto san yin jiao fica quatro dedos acima da parte saliente do osso interno do tornozelo.





4. Ponto zu san li, quatro dedos abaixo do joelho do lado externo do osso da canela.




Florais
A terapia dos florais foi fundada no começo do século passado pelo médico inglês Edward Bach. Ele desenvolveu essências capazes de restaurar o equilíbrio emocional. Muitas delas aliviam os descontroles e o cansaço típicos da TPM. “O efeito pode ser imediato ou demorar um pouco. O ideal é tomar as gotinhas por três meses pelo menos”, diz o terapeuta floral Josef Karel Tlach, de São Paulo.
Você pode unir até cinco essências florais na mesma fórmula, feita em farmácias homeopáticas. Tome quatro gotas, quatro vezes ao dia. Em crises severas, tome quatro gotas oito vezes ao dia. Ao melhorar, vá espaçando as doses até reduzir para quatro vezes ao dia. Os terapeutas florais Josef Tlach e Sandra Spiri, ambos de São Paulo, indicam os seguintes florais de Bach para os sintomas da TPM:

• Mustard – Para aliviar inchaço e depressão sem causa definida.
• Beech – Quando estiver muito irritada, agressiva e intolerante.
• Hornbeam – Se a TPM está associada ao estresse mental, traz clareza aos pensamentos.
• Olive – Alivia sintomas de cansaço, desânimo e estresse profundos.
• Cherry plum – Ameniza a irritação e o descontrole emocional.
• Gentian – Estimula a autoconfiança.
• Rescue – Reúne cinco flores, ótimo para combater todos os sintomas da TPM.
• Larch – Para insegurança e irritação.
• Scleranthus – Alivia basicamente a irritação e o descontrole emocional.
• Crab Apple – Favorece a eliminação de líquidos e alivia o inchaço.
• Impatiens – Combate a impaciência e a ansiedade exagerada (embora o Rescue já contenha Impatiens, esse floral pode ser usado separadamente para reforçar o efeito).

Reflexologia
Nos pés, temos os pontos que correspondem a todos os órgãos e à coluna. Essa é a base da reflexologia, que por meio de toques restabelece o equilíbrio energético do corpo e estimula o funcionamento do metabolismo. “No caso da TPM, a reflexologia age sobre os sintomas físicos e emocionais”, observa o reflexologista Jorge Matsuyama, professor do Senac, de Porto Alegre.
Ele indica uma versão da automassagem para fazer em casa: coloque uma bolinha de tênis no chão e pise descalço, colocando todo o peso do corpo sobre ela. Faça movimentos circulares, massageando toda a extensão da sola por cinco minutos, inclusive dedos e calcanhar. Insista nas regiões doloridas. Comece com o pé esquerdo e faça uma pausa, sentindo os dois pés no chão, antes de trocar a bolinha para o pé direito.






Jin shin jyutsu
Antiga técnica curativa japonesa, o jin shin jyutsu é realizado pelo toque suave das mãos – sem massagem nem pressão – em alguns pontos específicos do corpo. “Eles são chamados de travas de segurança de energia, ficam bloqueados por pensamentos e emoções acumulados, alterando o fluxo energético e o bem-estar”, afirma a instrutora Cristina Minamisawa, da Associação Brasileira de Jin-Shin-Jyutsu, de São Paulo. Ela indica os toques para a TPM. O ideal é fazê-los todos os dias, dez minutos pela manhã e à noite.

• Coloque as mãos nos dois lados do peito, um pouco acima dos seios e da linha das axilas, e observe se sente aí sua pulsação. Mantenha o toque por cerca de cinco minutos. Ele reequilibra as funções reprodutivas e hormonais.






• Para acalmar-se, envolva o pulso direito com a mão esquerda por alguns minutos. Depois troque.




• Contra irritação, segure o dedo médio direito com a mão esquerda por alguns minutos. Depois alterne.





Medicina chinesa
Segundo a medicina chinesa, os sintomas da TPM estão relacionados aos órgãos vitais e podem ser reequilibrados com a alimentação.

Uma desarmonia no fígado gera excesso de calor e por sua vez provoca irritação. “Para ficar menos irritada no período pré-menstrual, evite bebidas alcoólicas e alimentos que sobrecarreguem esse órgão, como carne vermelha e gordura”, explica o ginecologista Mauro Perini, professor de Acupuntura da Universidade Federal de São Paulo e diretor clínico do Spa Yan Sou, de Bragança Paulista. Dê preferência à carne de peixe e às bebidas refrescantes, como chá de hortelã.

O inchaço provocado pela retenção de líquidos, típico da TPM, é provocado por uma alteração no baço. Para reequilibrar esse órgão, evite alimentos que, segundo os chineses, aumentam a umidade do corpo, especialmente leite integral e derivados, e reduza o sal. O chá mais indicado é o de carqueja, que é diurético e favorece a eliminação de líquidos.
Freqüente na TPM, a melancolia é provocada por um desequilíbrio da energia do pulmão. Para combatê-la, prefira alimentos picantes, que fortalecem esse órgão, como o nabo e o rabanete. O chá perfeito é o de gengibre. Ferva a raiz fresca, coe e beba.
O desejo exagerado de comer doces vem de uma alteração no rim. Para tonificar esse órgão, coma frutos do mar e algas, brotos de feijão, soja e bambu, cogumelos, mandioca.

Aromaterapia
Sentir o aroma dos óleos essenciais ou massagear o corpo com eles é uma das maneiras mais simples e gostosas de diminuir o desconforto da TPM e ainda ficar com o corpo perfumado e macio.
Os óleos podem ser usados na banheira (quatro ou cinco gotas), no chuveiro (uma gota na esponja com sabonete líquido), na massagem (uma ou duas gotas em 15 ml de óleo de semente de uva) ou no travesseiro (1 gota na lateral do travesseiro não muito próximo ao nariz). Use as essências uma vez por dia, na semana anterior à menstruação.

A psicóloga e terapeuta floral Sandra Spiri, presidente da Associação Brasileira de Aromaterapia, indica alguns óleos essenciais para essa fase. Misture no máximo dois aromas e prefira os produtos naturais (os sintéticos não têm efeito terapêutico:(
• Sálvia: Restabelece o equilíbrio hormonal.
• Pau-rosa: Previne e alivia dor de cabeça e irritação.
• Alecrim e gerânio: Combinados, diminuem o inchaço.
• Bergamota: Reduz depressão e aumenta a auto-estima.
• Camomila e lavanda: Trazem calma e clareza.
• Rosa: Relaxa e é analgésico
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Texto: Mariana Viktor
Enviado por: Eva Lisa

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ciúme, Inveja - Viva e deixe viver

"Nada lhe posso dar que já não existam em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo." (HERMANN HESSE)

A mitologia grega tem belas histórias de amor e ciúmes. Uma delas é o romance ente o deus Eros e a mortal Psiquê, cuja beleza atraia admiradores e despertou o ciúme e a fúria de Afrodite, mãe de Eros. Para se vingar, ela pediu ao filho que usasse suas flechas encantadas para fazer com que a bela se apaixonasse pela criatura mais feia do mundo. Eros partiu para a missão, mas não a concretizou já que se feriu com sua própria flecha e se encantou pela jovem. Psiquê, filha caçula do rei de Mileto, era a única solteira. Preocupado por não encontrar um pretendente para a moça, o pai consultou o Oráculo de Apolo, por meio do qual o próprio Eros ordenou que ele a enviasse para o topo de uma montanha, onde seria desposada por uma serpente.

A recomendação foi cumprida e Psique, abandonada ao sacrifício. Tomada por um sono profundo, despertou num castelo florido. Lá se entregou ao romance com Eros, que a visitava todas as noites, sempre no escuro e encapuzado. Inconformadas com a ausência de Psique, as irmãs resolveram procurá-la. Quando a encontraram em um local tão agradável, tendo todas as vontades realizadas por um deus misterioso, o ciúme e a inveja entraram em cena.




Influenciada pelas irmãs e a despeito das advertências de Eros, Psiquê insistiu em descobrir a identidade do amado. Uma noite ela conseguiu se aproximar enquanto ele dormia. Deslumbrada com a beleza de Eros, ela deixou cair em seu ombro uma gota de óleo da lâmpada que carregava. Magoado e furioso, ele a castigou por ter desobedecido a seu pedido e a abandonou, apesar de todos os apelos desesperados de Psiquê. As últimas palavras do deus: "O amor não pode conviver com a suspeita".

É possível entender o ciúme como uma manifestação do ser humano, tão normal quanto a raiva, o medo ou a inveja. Há, no entanto fatores a serem considerados: a origem do sentimento, sua intensidade e duração, a maneira como a pessoa que o sente reage, a importância que assume no cotidiano e interferências que provoca não apenas na vida do ciumento, mas na daqueles que o cercam.

O filósofo francês Roland Barthes escreve: "Como ciumento sofro quatro vezes: porque me reprovo por sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade; sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum". O filósofo mostra a contradição e multiplicidade desse sentimento polimorfo tão presente no cotidiano.



Em diversas situações o indivíduo experimenta descontrole emocional: antigos fantasmas o assombram, levando-o a confundir situações atuais com traumas vividos ou imaginados. Na psicanálise observamos o caso em que Freud descreve como transferência a situação em que viveu: recém saído da faculdade de medicina, ele conhece o doutor Breuer que se apaixona por sua paciente Anna O (Bertha Pappenheim). Anna O também se apaixona por Breuer. No entanto, a esposa de Breuer com ciúmes exige que Breuer pare de atendê-la, indicando o doutor Sigmund Freud, pelo qual a paciente apaixona-se novamente.



A síndrome de Otelo é descrita como a realização do homicídio pelo marido que suspeita da traição de sua mulher. Após cometer o assassinato, suicida-se. É provável que na sociedade em que vivemos as relações tornem-se mais tênues, por um lado, e mais sujeitas ao rebote do efeito social frustrador, por outro. Parece que o indivíduo da sociedade moderna transfere sua busca da realização de anseios de consumo e posse para o relacionamento, concretizando sua raiva e agressividade.

O ciúme é um sofrimento psíquico que anuncia quando a situação passa a causar mal-estar intenso, repetindo-se de forma obsessiva (invasão de pensamentos) e compulsiva (perda do controle sobre suas ações), até comprometer aspectos da vida pessoal. Em algumas sociedades o ciúme é considerado uma "prova de amor", não sendo possível amar alguém sem que junto venha o sentimento do ciúme. Há pessoas que tentam despertar o interesse do parceiro deixando-o enciumado.

No Brasil há poucos estudos sobre o tema, mostrando a consideração do ciúme como um comportamento "normal".

Estudos recentes nos Estados Unidos mostram que os indivíduos ciumentos possuem fragilidade emocional e extrema insegurança do cônjuge. O perfil do ciumento, verificado por questionários num estudo recente, mostra que são pessoas que duvidam da sua própria capacidade de atrair interessados e de iniciar relacionamentos, tem dificuldades de acreditar que podem manter uma relação estável. A baixa auto-estima não só o leva a acreditar que pode ser traído pelo amado como também o faz esperar constantemente por isso.

Outro componente verificado é o tormento da imaginação obsessiva. As pessoas constroem fantasias paranóides, sentindo-se ameaçada pela perda e pela humilhação. É muito difícil para o profissional estabelecer um limite entre o sentimento fisiológico (normal) e o patológico. A literatura define o ciúme normal como um sentimento transitório, apresentado em momentos específicos, baseado em fatos concretos dentro de um contexto envolvendo um relacionamento amoroso. Já as manifestações patológicas aparecem como preocupações excessivas e infundadas, não necessariamente num contexto de relação amorosa e caracteriza-se com sintomas de quadros como transtornos de personalidade, alcoolismo, depressão e obsessão.

Pessoas com amor patológico também costumam sofrer de ciúmes devido ao intenso e contínuo medo da perda do parceiro. O amor patológico é predominante em mulheres e se caracteriza pela excessiva desconfiança e possessividade, mas seus questionamentos sobre fidelidade são geralmente calçados em motivos mais plausíveis.

O ciúme patológico também inclui atitudes egoístas, impulsivas e violentas. O quadro motiva inúmeros casos de homicídios, seguido de suicídio - "crimes passionais". Os pensamentos do ciumento costumam ser similares aos daqueles com transtorno obsessivo compulsivo: são intrusivos, desagradáveis e incitam atitudes de verificação ou busca de reasseguramento.

Neurofisiologia da Emoção

Devido à dificuldade de estudar o ciúme por relatos dos pacientes, neurocientistas, psicólogos, neurologistas, tentaram medições fisiológicas para tal sentimento. Buss e colaboradores começaram medindo a atividade do sistema nervoso autônomo em situações imaginárias de infidelidade. A frequência cardíaca e a sudorese de universitários mostraram-se aumentadas quando imaginavam suas parceiras tendo relações sexuais com outras pessoas. As mulheres mostraram-se mais perturbadas ao imaginar o parceiro apaixonado por outra mulher. No entanto, como os indivíduos estavam apenas imaginando uma traição, os testes não mostraram uma fidelidade científica já que poderiam apenas estar aferindo as respostas fisiológicas a outros sentimentos como medo ou ainda outros sentimentos cognitivos-emocionais. Os homens, por exemplo, exibiam o mesmo padrão de resposta quando imaginavam eles próprios tendo uma relação sexual com suas namoradas, o mesmo acontecendo com mulheres sexualmente ativas.

Aphrodite disarming Eros (A. Blocklandt - Prague, Narodni galerie v Praze)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Abandono e as feridas que ele pode gerar!

Quantas vezes, ainda que na presença de alguém, temos a nítida sensação que em qualquer momento podemos ser abandonados? Quantas vezes, diante de um atraso, sentimos verdadeiro pânico? Quantas vezes nos desesperamos diante da possibilidade da pessoa amada nos deixar?

Quem viveu o abandono durante a infância pode sentir um medo incontrolável de ser deixado, procurando evitar a todo custo ser abandonado novamente. Quando falamos de abandono não é apenas em casos em que uma criança é literalmente abandonada por seus pais, a quem se espera ser amada e cuidada, mas aquelas que são abandonadas através da negligência de suas necessidades básicas, da falta de respeito por seus sentimentos, do controle excessivo, da manipulação pela culpa, ainda que ocultos, durante a infância.

Crianças abandonadas, psicológica ou realmente, entram na vida adulta, com uma noção profunda de que o mundo é um lugar perigoso e ameaçador, não confiando em ninguém, porque na verdade não desenvolveu mecanismos para confiar em si mesma.

O abandono está diretamente relacionado com situações de rejeições registradas na infância e que pode se intensificar durante toda a vida, principalmente quando se vivencia outras situações de rejeição e/ou abandono. Cada vez que vivenciamos situações de perda é como se estivéssemos revivendo a situação original de abandono, do qual dificilmente se esquece. Podemos sim, reprimir, fugir desses sentimentos, mas raramente conseguimos lidar sem sofrimento diante de qualquer possibilidade de perda e/ou rejeição.

Quando somos rejeitados em nosso jeito de olhar, expressar, falar, comer, sentir, existir, não obtendo reconhecimento de nosso valor, principalmente quando somos crianças, é inevitável que se registre como abandono, pois de alguma maneira, ainda que inconsciente, abandonamos a nós mesmos para nos tornarmos quem esperam que sejamos. Sente-se abandonado quem não se sentiu acima de tudo amado e isso pode ser sentido antes mesmo de nascer, ainda no útero materno. Pais que rejeitam seu filho durante a gestação pode deixar muitas seqüelas, em nós, adultos. Toda criança fica aterrorizada diante da perspectiva do abandono. Para a criança, o abandono por parte dos pais é equivalente à morte, pois além de se sentir abandona, ela mesma aprende a se abandonar.

Conforme percebemos, consciente ou inconscientemente, e ainda muito pequenos, que a maneira com que agimos não agrada aos nossos pais, vamos tentando nos adequar ou adaptar nosso jeito de ser e, aos poucos, vamos nos distanciando de quem somos de verdade, agindo de maneira a sermos aceitos.

É quando começamos a desenvolver o que chamamos de um falso self, a um estado de incomunicação (falta de comunicação) consigo mesmo, gerando uma sensação de vazio. O falso self é um mecanismo de defesa, mas que dificulta o encontro com o self verdadeiro. É muito comum que crianças que cresceram em famílias com algum desequilíbrio, proveniente do alcoolismo, agressividade, maus-tratos, ou qualquer outro tipo de abuso, tenha sofrido a negação de seu verdadeiro eu.

Crianças que sofreram em silêncio e sem chorar, ou como alguns relatam: chorando por dentro, podem aprender a reprimir seus sentimentos, pois uma criança só pode demonstrar o que sente quando existe ali alguém que a possa aceitar completamente, ouvindo, entendo e dando-lhe apoio, o que nesses casos, raramente acontece. Pode acontecer dessa criança desenvolver-se de modo a revelar apenas o que é esperado dela, dificilmente suspeitando o quanto existe de si mesma por trás das máscaras que teve que criar para sobreviver.

Alguns pais, inconscientemente, numa tentativa de encobrir sua falta de amor - o que é muito comum, por mais assustador que seja para alguns - declaram muitas vezes seu amor pelos filhos de forma repetitiva e mecânica, como se precisassem provar para si mesmos seu amor, onde as crianças sentem que suas palavras não condizem aos seus verdadeiros sentimentos, podendo gerar uma busca desesperada por esse amor, cuja busca pode se estender durante toda a vida. Ficar só para essas pessoas pode ser uma defesa para evitar novamente o abandono, gerando um conflito constante entre a necessidade de ser cuidado e o medo de ser abandonado.

É muito comum a criança se sentir abandonada em famílias muito numerosas, onde há muitos irmãos, e os pais não conseguem dar atenção a todos. Ou quando os pais constantemente estão ausentes pelos mais diferentes motivos, seja em função do trabalho excessivo, viagens, doenças, internações constantes, ou até pela dificuldade em cuidar de uma criança, não conseguindo fazer com que se sinta amada nem desejada naquela família.

A sensação de ter valor é essencial à saúde mental

Essa certeza deve ser obtida na infância. Por isso que a qualidade do tempo que os pais dedicam aos seus filhos indica para elas o grau em que os pais as valorizam. Por outro lado, a criança que é verdadeiramente amada, sentindo-se valiosa quando criança aprenderá a cuidar de si mesma de todas as maneiras que forem necessárias, não se abandonando quando adulta. Assim como crianças que passaram maior parte de seu tempo com pessoas que eram pagas para cuidar delas, em colégio interno, distante de seus pais, não recebendo amor verdadeiro, mesmo tendo tudo que o dinheiro pode comprar, poderão ser adultos como qualquer outra criança de tenha vindo de um lar caótico e disfuncional, crescendo sentindo-se pouco valiosa, não merecedora do cuidado de ninguém, podendo ter muita dificuldade em cuidar de si mesma. Ou seja, a maneira com que nos cuidamos quando adultos, muitas vezes reflete a maneira com que fomos cuidados quando crianças.

Precisamos chegar a ponto de perdoar aqueles que de alguma forma nos abandonaram ou que nos causaram uma dor profunda. Para alguns, essa é uma tarefa fácil, mas temos que admitir que para outros, pode ser praticamente impossível.

Como perdoar um pai bruto, que o fazia trabalhar desde muito pequeno ou pedir dinheiro, do qual depois consumia em jogos e bebidas? Como perdoar um pai que abusou sexualmente da filha, psicologicamente do filho? Como perdoar uma mãe que trancava os filhos no armário ou no quarto ao lado enquanto se encontrava com outro homem dentro da casa, ou quando deixava os filhos sozinhos em casa dizendo que ia trabalhar, quando na verdade ia se divertir? Como perdoar pais que sempre ocultaram a verdade, insistindo na mentira? Como perdoar um irmão que abusou sexualmente da irmã? Como perdoar uma mãe que demonstrava suas insatisfações através de gritos com seus filhos? Como perdoar um pai que batia constantemente na mãe na presença dos filhos? Como perdoar aqueles que roubaram a infância e inocência de muitas crianças? Como perdoar aqueles que o deixaram, o abandonaram?

Não é possível perdoar se o perdão for entendido como negação do fato, pois precisamos sentir a dor que ficou reprimida em nossa alma. Perdoar não significa aceitar, mas se permitir sentir e expressar toda a raiva e dor reprimida e encontrar caminhos saudáveis que podem transformar esses sentimentos em experiência e aprendizado.

Ao nos tornarmos mais conscientes de nossas feridas, entre elas as geradas pelo abandono, podemos agir sobre aquilo que vivenciamos, aprendendo a respeitar nossos sentimentos mais profundos, assumindo a responsabilidade pelas mudanças que podemos nos permitir vivenciar no momento presente. Não se trata de regresso ao lar, porque muitas vezes esse lar nunca existiu. É a descoberta de um novo lar, o qual cada um de nós pode construir, sem mais se abandonar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ser Livre!

O que é ser livre? Como o homem pode ser livre? Seria uma possibilidade utópica?
Mal entendida, negada, almejada, sobretudo usurpada a liberdade sempre foi uma questão fundamental para a humanidade.

"Liberdade, essa palavra
Que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
E ninguém que não entenda"

Cecília Meireles

Há sempre questões, dúvidas e impossibilidades. Como serei livre com o pai que tenho? ...Ah! Quando eu me casar!... Depois do casamento pode ainda não sentir-se livre e novamente buscar soluções para iludir-se. Por que o ser humano tão freqüentemente é infiel? Será que aí julga-se livre? Estará ele realmente livre?

Liberdade não implica em falta de educação, ninguém precisa ser inconveniente ao meio para conseguir ser livre, mas deve impedir que o meio seja inconveniente a si para roubar-lhe a liberdade.

O homem sempre se fez prisioneiro de angústias, medos, culpas, solidão, impossibilidade de agir, padrões pré-determinados, doutrinas, normas, dogmas etc. Pode então se libertar buscando o autoconhecimento e realizando-se. Tornando-se responsável por suas escolhas.

Para Sartre o homem é a sua liberdade e está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto é livre, uma vez que foi lançado no mundo é responsável por tudo que faz.

Segundo Jaspers, só nos momentos em que exerço minha liberdade é que sou plenamente eu mesmo. Assim será o indivíduo autêntico, autônomo, auto-determinado.
Ser e fazer, implicam em liberdade. A condição primordial da ação é a liberdade. Liberdade é essencialmente capacidade de escolha. Onde não existe escolha, não há liberdade.

O homem faz escolhas da manhã à noite e se responsabiliza por elas assumindo seus riscos (vitórias ou derrotas). Escolhe roupas, amigos, amores, filmes, músicas, profissões... A escolha, sempre supõe duas ou mais alternativas; com uma só opção não existe escolha nem liberdade.

As escolhas nem sempre são fáceis e simples. Escolher é optar por uma alternativa e renunciar à outra ou às outras. Não existe liberdade zero ou nula. Por mais escravizada que se ache uma pessoa, sempre lhe sobra algum poder de escolha. Também não há liberdade infinita, ninguém pode escolher tudo.

Na facticidade (quando somos forçados a confrontar), somos limitados, determinados. Um ótimo exemplo nos é dado por Luís Fernando Veríssimo quando descreve: "poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas, mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar no avião. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos".

Contra o senso comum "ser livre" não significa "obter o que se quis", mas sim "determinar-se por si mesmo a querer" (no sentido de escolher). O êxito não importa em absoluto à liberdade. O conceito técnico e filosófico de liberdade significa: autonomia de escolha, não fazendo distinção entre intenção e ato.

O ato livre é, necessariamente, um ato pelo qual se deve responder e responsabilizar-se. Porque sou livre tenho que assumir as conseqüências de minhas ações e omissões.
Os animais irracionais não são livres, não são responsáveis pelo que fazem ou deixam de fazer. Ninguém pode condenar um cavalo que lhe deu um coice. O animal não faz o que quer e sim o que precisa ou o que se encontra determinado pelo instinto de sobrevivência para que continue existindo.

O próprio vôo de um pássaro está sujeito às leis da Física. Kant brincava com essa idéia, imaginando uma pomba indignada contra a resistência do ar que a impediria de voar mais depressa. Na verdade, argumenta, é justamente essa resistência que lhe serve de suporte, pois seria impossível voar no vácuo.

"Não me apontes o caminho,
o rumo certo pra chegar ao cimo.
Deixa-me encontrá-lo para que seja
meu...
Não me reveles a mais brilhante estrela,
Aquela que te guia.
Eu buscarei a minha...

Não me estendas a mão quando eu cair.
Em tempo certo, em hora exata,
Eu ficarei de pé...

Não te apiedes de mim.
É minha estrada, é minha estrela,
É meu destino.

Deixa apenas que eu seja.
Sem ti..."

Eliette Ferreira

O homem para Sartre não pode ser ora livre, ora escravo. Ele é totalmente e sempre livre, ou não o é.
A liberdade não é alguma coisa que é dada, mas resulta de um projeto de ação. É uma árdua tarefa cujos desafios nem sempre são suportados pelo homem, daí resultando os riscos de perda de liberdade pelo homem que se acomoda não lutando para obtê-la.

domingo, 9 de outubro de 2011

Agressividade - Entenda os vários aspectos psicológicos

Talvez não haja um tema tão importante para o desenvolvimento das relações sociais, e melhoria da qualidade de vida do coletivo do que discutir à agressividade em vários níveis psicológicos. Infelizmente por aspectos culturais e até mesmo religiosos, se compara a agressividade apenas com violência ou destrutividade. Estas duas últimas são aspectos totalmente patológicos da conduta humana, causando risco iminente para a própria sobrevivência da espécie. A agressividade é um fenômeno comum do cotidiano, e nos cabe entender a mesma, buscando tanto seus aspectos positivos quanto os negativos. O enfoque do estudo é a agressividade enquanto afastamento de outro ser humano, e não a violência ou qualquer coação física.

Por definição, dentro de um parâmetro psicológico, a pessoa agressiva é aquela que reage a todo acontecimento, como se fosse uma prova, contenda ou disputa na sua leitura mental. A competição passa a reinar na alma da pessoa; e se fizermos um levantamento da história do indivíduo, descobriremos que desde cedo o mesmo se esforçou em demasia para não vivenciar a experiência da exclusão. A crítica é sempre devastadora para estas pessoas. Esta definição contempla os aspectos negativos do fenômeno. É curioso notar como a agressividade é um divisor de formas de conduta ou personalidade, pois o oposto é uma pessoa que vive em lamúria ou autocomiseração. Já os agressivos têm uma precipitação de reações ou sentimentos. Mais curioso ainda é como a sociedade amplia o conceito de agressividade, considerando que a própria sinceridade e autenticidade são resultados da mesma.


Com toda a certeza a hipocrisia é a manutenção da agressividade ao extremo, cortando todas as formas possíveis de reação. É um instrumento político de manutenção da força e desigualdade, para se evitar qualquer transformação nas relações. Poucos refletem sobre o fato de que uma explosão de raiva pode ser tão agressiva quanto uma omissão num momento fundamental de ajuda ou participação perante outra pessoa. Já sabemos que a dissimulação faz parte de nossa era, mas esta também é uma “filha” legítima da agressividade, sendo uma espécie de permissão para vivenciar a mesma de forma velada como foi exposto. O dilema histórico da humanidade é quando conter ou não a agressividade. Sua repressão abala inclusive a saúde física da pessoa.

O problema é que numa sociedade totalmente competitiva como a nossa, toda a resposta caminha à agressão, por conta da leitura de que alguém está invadindo o espaço vital do sujeito. A consequência é não apenas enfrentar os efeitos da agressividade, assim como a culpa resultante do processo. Quais seriam os aspectos positivos da agressividade? Servir para uma reflexão profunda sobre o tipo de reação que realmente é necessária. Os extremos assolam nossa sociedade; seres belicosos em qualquer situação banal, e personalidades ingênuas, não abstraindo a verdadeira intenção de seu meio; expor também os reais aborrecimentos ou sentimentos de frustração perante a pessoa ou coletividade. O problema passa a ser a dosagem de como isto é feito.

A autenticidade não implica necessariamente em rigidez, potência de voz ou extrema ansiedade. A explosão emocional se insere exatamente neste quadro, e a pessoa invariavelmente perde sempre o controle. Mas o que acontece que motiva sempre a perda do rumo para uma situação de conflito? Novamente podemos falar da competição? Tudo o que está sendo levantado remete ao que ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD, e criador da psicologia social, chamava de “complexo de inferioridade”. Pode ser definido desde sentimentos ou pensamentos depreciativos para com o próprio físico da pessoa, passando por sua crença internalizada de que não é uma pessoa com poder ou carisma perante a sociedade.

Quem sofre do complexo de inferioridade convive desde sua infância com uma certeza mórbida de que sempre é a última a ser lembrada ou requisitada para algo especial. A conseqüência deste processo é o desenvolvimento de uma personalidade tímida e retraída, sendo que nas situações sociais não sente nenhuma potência pessoal, gerando a raiva e ódio como compensações psicológicas. É como se na presença de outros se sentisse totalmente anulada, e o ódio citado vai constantemente sendo expelido. 

O drama máximo do agressivo é não perceber que é usado constantemente por pessoas que não conseguem lidar com sua raiva; estas acabam sempre criando uma armadilha para que a suposta pessoa agressiva atue o que as outras jamais teriam coragem de expor. É uma projeção de catarse no outro.


A agressividade negativa remonta a dificuldade de se lidar com o sentido mais profundo da vida. A posse e o apego, por exemplo, são forças direcionadas para um prazer metafísico de acúmulo ou continuidade do ego, o que contraria a essência de nossa vida que diz que jamais iremos reter, mas ao contrário, apenas podemos deixar algo.

Este fator realmente é eterno. 
Desde a disputa do complexo de Édipo, até as disputas históricas pelo poder, a agressividade negativa tem a característica de deixar marcas ou traumas indeléveis. É a tentativa de se eternizar usando o pólo destrutivo da alma humana. Infelizmente nossa mais forte lembrança para as gerações futuras sempre foi o uso da força e a brutalidade, nos mostrando que jamais esqueceremos alguém que nos impôs algo, ou então que desfilou determinado sentimento para o qual jamais poderíamos nos preparar, sendo esta a essência do trauma.

Se o respeito for obtido pela autoridade ou desprezo, a consequência inevitável será a cristalização do medo e insegurança. Caso seja conquistado pela superproteção ou mimo, se desenvolverá uma Personalidade egoísta e narcisista. O único ponto possível de equilíbrio é a retirada absoluta do rancor de um passado, para que a pessoa não descarregue ou compense algo em seus descendentes. O respeito pleno pela individualidade deve ser a meta. Obviamente não se esquecendo a imperiosidade de regras de convivência e responsabilidade social. Paciência, dedicação e confiança são a tríplice potência para formarmos algo de valor. 



A pergunta é: Você está disposto a aprender a ser um bom pai ou mãe? Tem ciência de toda esta responsabilidade para com o futuro do ser humano?


O fator psicológico central de uma pessoa agressiva é que a mesma possui a plena consciência de uma vida que lhe seria satisfatória, agindo com um tom constante de revolta pela não obtenção de seu projeto pessoal; sabe também que a cada dia está mais distante dessa
meta. Esta tese se transforma no núcleo do círculo vicioso. O não atingir o desejo pessoal ativa uma reação descontrolada e intempestiva perante uma simples frustração, e tal hábito afasta a pessoa da solução definitiva de seu problema comportamental. Reagir perante os mais insignificantes fatos novamente é o indício da atuação marcante do complexo de inferioridade no ser humano.

A agressividade se alia constantemente com outros sentimentos negativos, o principal deles é a inveja, devido à possibilidade da descarga da frustração e raiva. A inveja cria uma constante necessidade de fuga da situação dolorosa de se comparar e se sentir inferiorizado, partindo-se para o ataque. A
agressividade é consequência de uma política não apenas econômica do nosso sistema, mas dirigida a esconder todos os sentimentos ou emoções negativas do tipo: cobiça, ódio, avareza e a inveja citada. O sistema só permite o aflorar de tais sentimentos na hora exata do consumo, pilar da sociedade e fator destrutivo do “eu”, dependendo de sua freqüência. A agressão então se transforma na resposta fisiológica do silêncio imposto pela sociedade, assim como suas regras de dissimulação, como vimos anteriormente. Torna-se ainda um tipo de distração e fuga do tédio e rotina que assolam a pessoa. Jamais haverá cura para a agressão social e individual se não lidarmos com todos os mecanismos que geram a hipocrisia nas relações.

A tese no transcorrer do texto é a de que o agressivo se adianta a uma possível experiência de rejeição, tendo a certeza de que alguém fatalmente irá contrariar suas expectativas. Além disso, se conhece como uma pessoa totalmente solitária, sendo que o aflorar de sua agressividade é exatamente em resposta ao hábito de jamais conseguir conservar uma amizade ou relacionamento, disfarçando sua miséria afetiva no remoer todo tipo de conflito. A derrocada (ruína) de qualquer projeto afetivo sempre será iminente.

A pergunta é: será possível anular tal “maldição” pessoal? 

A experiência clínica comprova que uma das únicas possibilidades de cura é a vivência de seus sentimentos dolorosos na psicoterapia, transportando seu lado bélico numa arena onde realmente possa ser diluído ou controlado. A agressividade continuará no topo comportamental da pessoa quanto maior for sua necessidade de atenção ou carência. Temos de perceber que a compulsão para a liderança, poder e orgulho, quase sempre pode superar uma reflexão genuína e honesta acerca da conduta da pessoa. O fato é que a resposta agressiva acaba não temendo qualquer tipo de perda, pois sua meta é a desforra contra imagens de ódio internalizadas em seu passado.



O sonho a seguir relatado por um paciente dá a medida exata de tudo o que foi dito até o presente momento: “sonhei que iria enfrentar o maior campeão do mundo no boxe; meu treinador também havia sido um grande lutador; comecei a perceber então a enrascada em que estava; como poderia enfrentar alguém tão forte e impiedoso sem nunca ter treinado ou feito qualquer tipo de condicionamento físico; pensava em desistir, mas o medo do vexame me assolava totalmente; sentia que meu oponente além de tudo estava em sua melhor forma física; o curioso é que meu treinador acreditava em mim, me falando que a saída era um único golpe certeiro. A multidão começou a lotar o ginásio, e antes da luta vim a falecer”. Este sonho mostra de forma cristalina toda a desproporcionalidade vivida por pessoas com um potencial agressivo acima da média, se engajando em situações onde fatalmente não terão um mínimo preparo para resolver de forma equilibrada seus conflitos, sejam pessoais ou sociais. É interessante como a energia agressiva atrai um “campeão do boxe”, provando que o fator inconsciente lançará a pessoa no caos, pois sua ira interna é desmedida perante suas reais potencialidades e possibilidades. O agressivo possui uma ambiguidade constante de desafio e recuo, o que aumenta sensivelmente todo seu tormento ou complexo de inferioridade.

Mas é justamente neste ponto que coloco em discussão outra temática polêmica; o agressivo não desejaria nunca ter a conduta do desafio, porém, sente que não há outras alternativas afora seu comportamento viciado. Como seria de vital importância que o sistema percebesse e aprofundasse tal conceito, provando realmente seu desejo de ajudar a evolução da pessoa. O emaranhado criado pela agressividade visa somente a compensação pela falta de estrutura e segurança afetiva. A agressividade em nosso mundo sempre irá gerar uma sensação de orfandade ou abandono, pois quase nenhum ser humano tem a capacidade de lidar plenamente com a culpa ou remorso após uma situação conflituosa. Aprofundando um pouco mais tal conceito, diria que somente depois de determinada perda é que o sujeito preso na agressividade visualiza todo seu histórico e modo de lidar com os afetos, embora como disse antes não consiga frear tal acontecimento.

Se olharmos à nossa volta, perceberemos que a competição é a droga ou vício de alguém que sempre tombará no lado pessoal. Basta nos atermos ao drama das separações ou conflitos conjugais. É impressionante a alienação nesta esfera. Há muito venho afirmando que nossa conduta profissional ou social é inteiramente transportada para o lado afetivo, pois uma relação jamais estará protegida das contaminações das relações sociais e de poder, porém, quase ninguém ainda percebeu tão óbvia conclusão.

A agressividade gera todo tipo de medo perante uma retaliação ou revanche, desencadeando o fenômeno da paranóia. É curioso que a psicanálise tenha descrito tal patologia como sendo uma proteção inconsciente perante uma possível homossexualidade, alterando tal conteúdo sexual para uma sensação de ser perseguido constantemente. O que FREUD deixou de salientar com seu famoso estudo do caso *SCHREBER, é que o paranóico não está fugindo de possíveis energias sexuais que teme, mas que a própria paranóia é o último recurso para não se tornar um psicopata, dado que sua agressividade atingiu um estágio fora de qualquer tipo de controle. Assim sendo, a mente inverte a polaridade, fazendo com que a mania de perseguição encubra ao menos temporariamente seus instintos destrutivos; ao invés de ser o perseguidor, se transforma na vítima.

O rancor, a raiva ou o ódio dão uma falsa sensação de vitalidade para a pessoa com a meta da desforra, porém, cedo descobrirá que há muito se encontra putrefata em seu passado de tortura por algo que apenas encobre sua incapacidade para o novo. Outro drama do agressivo é sua relação com a questão do tempo. Sente que não o possui em demasia, desenvolvendo a impaciência e extrema ansiedade. O agressivo possui uma idéia arraigada ou internalizada de que há muito lhe foi retirado algo de extremo valor no auge de seu gozo ou aproveitamento. A consequência é o incremento do narcisismo, pois clama o tempo todo que foi “roubado”, ou que até hoje não vivenciou determinada experiência de prazer, achando que deve ser o único merecedor de atenção perante sua injustiça pessoal. 



O agressivo se tornaria extremamente útil se aprendesse a utilizar sua energia de protesto no favorecimento e reforço de pessoas com baixa auto-estima ou temerosas de seu eu. Não seria apenas uma sublimação, mas um ânimo que poderia doar ou compartilhar com alguém que está sempre duvidando de suas capacidades. Claro que o sujeito agressivo também não tem uma boa estima, mas o que enfatizo seria o transporte de determinadas atitudes àquelas pessoas que nem sequer se posicionam nas mínimas solicitações.

A experiência clínica nos mostra uma faceta curiosa acerca do fenômeno da agressividade. Muitas pessoas que vêm para se tratar são extremamente instruídas tanto do ponto de vista intelectual, como de experiência de vida propriamente dita. O fato é que quase todas alegam não conseguir encontrar alguém que aceite trocar ou aprender sobre seu grande conhecimento acumulado. Alguns rapidamente responderiam que tal fato ocorre pela rejeição perante a personalidade do agressivo ou o modo como se comporta. Embora isto seja evidente, não completa como um todo a análise da questão. 


Não seria apenas o medo de uma pessoa o fator determinante do afastamento, mas principalmente que esta lhe desperte um potencial que nunca soube explorar. Foi citado anteriormente que o agressivo pode ser uma espécie de “bode expiatório”, àquelas pessoas que não ousam se colocar de forma sincera. Aqui acrescento uma certa inveja contra alguém que apesar de talvez exceder no trato social, alimenta uma certeza perante seu posicionamento. O final da era das revoluções se aplica também na pessoalidade humana; a lei atual é o medo e ansiedade quando se escuta a palavra mudar.

Outra questão a ser enfatizada é: o que leva em nosso cotidiano a alguém aumentar seu potencial agressivo? É um erro imputar tal fenômeno a uma sensibilidade em excesso perante injustiças pessoais, ou as traições e decepções que vivenciamos diariamente. A verdadeira questão é que o sujeito agressivo,
apesar de toda sua conduta imponente se sente na maioria das vezes totalmente dependente do outro, e o ódio é uma reação de desespero e tentativa de negar tal condição; este é seu pecado capital, quanto maior a energia empregada numa contenda, maior o risco de capitulação perante a opinião alheia. Não é por acaso que a sociedade é tímida, pois o verdadeiro inferno é a ditadura do julgamento alheio. A sociedade encaixa e dá sua importância a algumas modalidades: beleza, poder, riqueza ou prosperidade, candura e obstinação. O agressivo é totalmente expurgado do quadro anterior, sentindo que apenas na infração penal ou até mesmo na guerra é que se torna alguém necessário, sendo talvez suas únicas razões históricas de existência. A conseqüência de tal compreensão é um imenso quadro ansioso e de expectativa de mudança que não depende mais do indivíduo, mas de outro que possa lhe dar a absolvição.

Enfim, o agressivo deve aprender que uma verdade que expõe pode até ser transcendental, mas jamais pode justificar a submissão plena do outro. Há a necessidade da compreensão, observação e escuta profunda, mesmo perante alguém imbuído de idiossincrasias. O agressivo deve perceber que se habituou com um cenário de disputa e conflito, sendo que seria uma vitória para seu caráter expor seu lado caloroso e humano, e não somente sua rebeldia. A amargura que carrega, sempre será uma defesa perante sua “cruzada” histórica mal sucedida nos afetos. Sente ainda que jamais teve uma chance concreta de mudança ou de mostrar algo diferente. A observação clínica mostra que o agressivo possui uma admiração e curiosidade por pessoas formais e pragmáticas. Isto se deve ao fato de que estas últimas têm um anteparo eficiente contra a rejeição ou agressividade do meio.

O agressivo apesar de tudo sabe que é um eterno ingênuo num mundo de códigos e condutas totalmente subliminares. Sente a cada dia o afastamento por sua integridade emocional. Procura desesperadamente alguém que o aceite e compreenda seu modo peculiar de enxergar as relações cotidianas. Encanta-se facilmente com uma pessoa que mostra alegria e felicidade dentro de toda a estrutura social corrompida, pois sua necessidade é de uma espécie de “férias” do lado sombrio que constela diariamente. A lição suprema para este tipo psicológico é que toda a carga agressiva que tentou expelir durante anos, acabou se voltando contra si próprio, maculando sua paz de espírito, fator primordial para a saúde psíquica.


*SCHREBER: famoso caso atendido por FREUD de uma manifestação de delírio paranóico, que foi interpretado como um homossexualismo latente.
Referências bibliográficas: FREUD, Sigmund. “O CASO SCHREBER”, in OBRAS COMPLETAS. MADRID(ESPANHA): BIBLIOTECA NUEVA, 1981.

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