domingo, 16 de setembro de 2012

A Parábola da Carruagem


Um dia, toca o telefone.
Quando atendo, uma voz muito familiar me diz:
– Oi, sou eu. Tem um presente para você na rua.
Entusiasmado, vou para a calçada e vejo o presente: uma linda carruagem de nogueira estacionada bem em frente à porta da minha casa. É lustrosa, com ferragens de bronze e candelabros de porcelana branca, tudo muito fino, muito “chique”.
Abro a portinhola da cabine e subo. 
Um grande assento semicircular estofado em veludo bordô e cortinas de renda branca dão um toque de realeza ao veículo. Sento-me e percebo que a carruagem foi feita exclusivamente para mim: foram calculados o comprimento das pernas, a largura do assento, a altura do teto... Tudo é muito confortável e não há lugar para mais ninguém.
Então, olho pela janela e vejo “a paisagem”: de um lado, a fachada da minha casa; do outro, a da casa do vizinho... “Que presente maravilhoso!”, digo e fico desfrutando esta sensação.
Porém, logo em seguida começo a ficar entediado, pois a vista é sempre a mesma.
Então pergunto-me: “Por quanto tempo se pode olhar para as mesmas coisas?” E começo a me convencer de que o presente que ganhei não serve para nada.
Estou me queixando disso em voz alta quando meu vizinho passa e diz:
– Você não vê que está faltando alguma coisa nessa carruagem?
Olho para os tapetes e estofados com uma expressão que pergunta “o quê?”.
– Os cavalos – responde ele, antes mesmo que eu consiga abrir a boca. “Por isso vejo sempre a mesma coisa e acho entediante”, penso. Então vou até uma estrebaria e consigo dois cavalos jovens e fortes. Atrelo os animais à carruagem, subo de novo e grito: – Eeeeeeia!
A paisagem fica maravilhosa e muda constantemente, o que me surpreende. No entanto, pouco depois começo a sentir uma trepidação no veículo e uma rachadura se insinua em uma das laterais. Os cavalos estão me levando por caminhos terríveis: passam por todos os buracos, sobem nas calçadas, atravessam regiões perigosas. Percebo que não tenho controle de nada e que os animais me arrastam para onde querem.
A princípio achei a aventura bastante divertida, mas agora vejo como é perigosa.
Começo a ficar assustado e a me dar conta de que esta situação também não é boa para mim.
Então, vejo meu vizinho, que está passando por perto em sua própria carruagem.
– Veja o que você fez! – reclamo.
Ele grita de volta para mim:
– Falta o cocheiro!
– Ah!
Ele me ajuda e, com grande dificuldade, controlo os cavalos e decido contratar um cocheiro. Tenho a sorte de encontrá-lo rapidamente.
É um homem formal e reservado, que parece ter muita experiência, mas pouco senso de humor.
Ele logo assume suas funções.
Parece que agora tenho tudo de que preciso para usufruir de meu presente.
Subo, sento-me e digo ao cocheiro aonde quero ir.
Ele conduz e mantém toda a situação sob controle. Decide a velocidade adequada e escolhe o melhor caminho.
Eu, na cabine... aproveito a viagem.

Esta pequena parábola nos ajuda a entender o conceito holístico do ser da maneira como é entendido ao longo de todo este livro. (Quando me conheci)

Há muitos anos fomos concebidos, resultado do desejo de duas pessoas e da união de duas minúsculas células. E, mesmo antes de nosso nascimento, já havíamos recebido o primeiro presente: nosso corpo. Ele é uma espécie de carruagem feita especialmente para cada um de nós. Um veículo capaz de se adaptar às mudanças, de se modificar com o passar do tempo, mas projetado para nos acompanhar durante toda a viagem. Pouco antes de deixarmos nossa protegida “casa materna”, nosso corpo manifestou um desejo, uma necessidade, um anseio instintivo – então se moveu. 

O corpo sem  desejos, necessidades, impulsos ou afetos que o façam entrar em ação seria como uma carruagem sem cavalos. Durante nossos primeiros dias de vida, chorar e reclamar quase tiranicamente a satisfação dos nossos apetites era suficiente. De fato, bastava esticar os braços, abrir a boca ou girar a cabeça com um sorrisinho para conseguir o que queríamos, sem correr riscos. No entanto, logo começou a ficar claro que, se não fossem controlados, os desejos poderiam nos conduzir por caminhos muito arriscados, frustrantes e até perigosos. Então, percebemos a necessidade de reprimi-los.

É quando aparece a figura do cocheiro, que é a mente, o intelecto, a capacidade de agir de acordo com a razão. Um cocheiro eficiente, encarregado de determinar o trajeto, evita alguns caminhos cheios de perigos desnecessários e riscos desmedidos. Cada um de nós é ao mesmo tempo os quatro personagens dessa história. Ou seja, ao longo de nossa vida, além de sermos o passageiro, somos também a carruagem, os cavalos e o cocheiro. Somos nosso corpo; nossos desejos, nossas necessidades e emoções; nosso intelecto e nossa mente; e também os nossos aspectos mais espirituais e metafísicos.

Devemos encontrar a harmonia entre todas essas partes, tomando cuidado para não deixar de lado nenhum dos protagonistas. Permitir que o corpo seja levado somente pelos impulsos, afetos ou paixões é extremamente perigoso. Precisamos da mente para manter certa ordem em nossa vida. O cocheiro serve para avaliar o percurso, mas quem de fato puxa a carruagem são os cavalos. Não devemos permitir que o cocheiro os negligencie. Eles devem ser alimentados e protegidos, pois o que faríamos sem eles? O que seria de nós se fôssemos somente corpo e cérebro? Como seria a vida se não tivéssemos nenhum desejo? Ela seria como a das pessoas que seguem pelo mundo sem entrar em contato com suas emoções, deixando apenas que o cérebro as conduza.

Obviamente, também precisamos cuidar da carruagem. E isso implica consertar, zelar, ajustar o que for necessário para a sua manutenção, porque ela precisa durar todo o trajeto. Se ninguém cuidar dela, a carruagem poderá se quebrar e assim a viagem irá terminar cedo demais. Só quando consigo assimilar isso, quando tenho consciência de que sou meu corpo, minhas mãos, meu coração e minha cabeçaquando reconheço que sou minhas vontades, meus desejos e meus instintos, assim como sou meus amores e desafetos; quando aceito que sou também minhas reflexões, minha mente pensante e minhas experiências, só então estou em condições de percorrer adequadamente o melhor dos caminhos para mim, ou seja, o caminho que me cabe percorrer.

Do livro de Jorge Bucay: Quando me conheci - Quem sou? Aonde vou? Com quem? As três perguntas que você deve fazer para encontrar seu caminho - Editora: Sextante




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