domingo, 18 de setembro de 2011

Solidão... Antes só do que mal acompanhado!?



"Obrigada por razões profissionais a me transferir para São Paulo, me encontro sozinha e sem amigos. A cidade me sufoca durante o dia e me isola à noite num pequeno apartamento de bairro. Não sei o que fazer, não tenho a quem recorrer, às vezes chego quase ao desespero. Quero gente para conversar e para conviver. Ajude-me, por favor. (Cartas para Solitária desesperada)".




Pedido de socorro como esse, acima, está se tornando frequente em São Paulo e em outras grandes cidades. Razões profissionais e casamentos dos filhos, são os principais motivos para deixar os pais sozinhos; separação conjugal, viuvez, e não ter conseguido encontrar o amor da vida, também podem esvaziar o sentido de existência de algumas pessoas.

Nossa sociedade pós-moderna caracterizada pelas comunicações eletrônicas parece mais afastar do que aproximar as pessoas. A Internet como nova onda de comunicação, promete ser um meio de fazer amizades e até uniões amorosas, mas evidentemente é preciso saber ‘mexer’ no computador, na Internet, o que não é costume da geração mais ‘à antiga’. Muitos solitários como a moça acima, deseja mais que um  relacionamento virtual demanda uma companhia real que dê sentido à própria vida.

Não são poucos os que, desesperançados, terminam se virando com a companhia de um cachorro ou um gato....

O filósofo Schopenhauer, um dos muitos pensadores solitários, talvez até anti-social, preferia a companhia agradável de seu cão Atma à companhia humana. Lembro-me do carioca Eduardo Dusek quando compôs uma letra de música, não sei se moralista ou irônica que dizia “troque seu cachorro por uma criança pobre”. Houve gente sensibilizada até a medula, mas duvido que adotaram uma criança pobre e jogaram seu cachorrinho na rua.

Solidão X companhia

O paradoxo social contemporâneo é convivermos o dia a dia com tanta gente e ao mesmo tempo nos sentirmos solitários. Muitas são as situações geradoras de solidão: existe a solidão gerada pelo próprio poder, a solidão decorrente da riqueza, a solidão dos bem e mal casados, a solidão imposta pelo trabalho atomizado (significa promover o individualismo, ordenar as relações humanas segundo princípios hierárquicos), a solidão da criança cujos pais são egoístas ou inafetivos, a solidão dos velhinhos rejeitados com suas memórias e muitas vezes abandonados nos asilos onde se tornam esquecidos
dos familiares, a solidão das crianças órfãs, abandonadas ou que são obrigadas a viverem em instituições repressivas, a solidão da loucura, a solidão dos internos dos hospitais psiquiátricos,  a solidão dos enfermos hospitalizados, a solidão do excluídos no topo do mercado de trabalho,  a solidão do desempregado, a solidão do operário que deixou família para trabalhar na cidade grande, a solidão do estigmatizado, a solidão da morte, etc, etc.

As cifras da Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios, diz que está aumentando o número de solitários no Brasil. São 3,8 milhões que moram sozinhos, um aumento de 137%, de 1988 a 1999. São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte estão à frente com mais pessoas vivendo isoladas. Esta pesquisa aponta somente os sozinhos, portanto, deixa de revelar o sentimento de solidão, o que evidentemente revelaria um universo ainda maior  desta população. Também revelam um significativo aumento de pessoas que vivem sozinhas por opção ou por imposição.

Os governantes dos países nórdicos por vezes revelam preocupação com o aumento de ‘casais solitários’, isto é, casais que fazem opção de não ter filhos. Preocupação parecida existe também em alguns paises asiáticos, tradicionais de famílias numerosas, como Cingapura, hoje convive com uma nova geração de família com um único filho, ou casal sem filhos e mulher que se recusa casar. A classe média brasileira também fez a opção de cada casal um ou dois filhos. A China, por sua vez, ao instituir a política "cada casal, um filho" de certa forma impôs uma forma de solidão ou tédio familiar. A geração de “filhos únicos” chamada de “reizinhos mandões” por ser demasiadamente crianças paparicadas, mimadas e excessivamente alimentados pelos pais, terminam obesas, egoístas, individualistas e incapazes de assimilar os “nãos” da vida.

Solidão “por opção” e “por obrigação” e seus efeitos

Muitas pessoas solitárias justificam seu “desejo de privacidade”, escolhendo "viver sozinhas porque gostam de liberdade", “preferir viver sozinhas a mal acompanhadas”. A tendência individualista de nossa época reforça o temor de conviver com as diferenças humanas, afinal, morar junto mesmo implica, sobretudo, sermos tolerante, compreender o outro, termos que dividir espaços e coisas e aceitar conferir a todo o momento que o outro não nos preenche.

Demandamos sempre que o outro irá preencher nosso vazio existencial, mas isso não passa de um delírio visando zerar nossa falta essencial, afinal o sujeito é sempre um sujeito faltoso. Os mais conscientes dessa falta se recusam a investir num relacionamento duradouro.

No universo dos sozinhos existem aqueles que o fizeram por opção pessoal, e aqueles que devido às contingências da vida foram obrigados a viverem desacompanhados.

Depois que morreu seu companheiro por mais de trinta anos, a viúva D. X. optou por viver sozinha apesar, dos filhos insistentemente convidarem a querida mãe para se mudar para a casa deles; por enquanto ela diz preferir não abrir mão de sua privacidade. Muitos aposentados se queixam de terem sumido os ‘amigos’ do trabalho. O rótulo de ‘inativo’sinaliza exclusão na linguagem e na prática da convivência diária.  Inativo ou aposentado são palavras mal ditas  no Brasil. Principalmente se for jovem o sujeito é visto como um “privilegiado”, que evidentemente força-o ainda mais ao isolamento ressentido.

O isolamento social obrigatório é muito diferente do viver sozinho “por opção”. No primeiro, existe a imposição do destino ou das circunstâncias, no segundo, a escolha é consciente e deliberada viver solitariamente.
A solidão só pode ser conquistada – ou domada – por aqueles cuja coragem e determinação de levá-la a trabalhar, a produzir criativamente. Entretanto, conquistar a solidão ou domá-la não quer dizer eliminá-la. Dizem que a Cecília Meireles, mesmo quando acompanhada dos amigos, dava sempre a impressão de estar solitária, vivendo no seu próprio mundo, impenetrável.

A solidão indomada tem o poder de fazer do sujeito seu objeto, isto é, efeitos patológicos são previsíveis como a depressão, às drogas, à hipocondria, ao alcoolismo e até o suicídio.

Por isso, Bachelard pergunta: “Como se comporta sua solidão?

Esta pergunta tem mil respostas...
Em que recanto da alma, em que recanto do coração, em que lugar do espírito, um grande solitário está só, bem só?
Só?
Fechado ou consolado?
Em que refúgio, em que cubículo, o poeta é realmente um solitário?

E quando tudo muda também segundo o humor do céu e a cor dos devaneios, cada impressão de solidão de um grande solitário deve achar sua imagem (...) Um homem solitário, na glória de ser só, acredita às vezes pode dizer o que é a solidão. Mas a cada um cabe uma solidão (...) As causas da sua solidão não serão nunca as causas da minha”. E conclui: “A solidão não tem história”.

Feliz Olhar Novo (Carlos Drummond de Andrade)
“…Chorar de dor, de solidão, de tristeza faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam  diferentes…”


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