domingo, 25 de setembro de 2011

A relação afetiva é o grande espelho que reflete quem somos



Terapeuta de casal, Jorge Bucay afirma que, em um relacionamento, o comportamento do seu parceiro deve servir de espelho para facilitar o seu autoconhecimento. Segundo ele é impossível um relacionamento ser totalmente bom ou ruim.


Sem dúvida ter um relacionamento duradouro é uma tarefa que produz suor, lágrimas, doses altíssimas de prazer e aulas avançadas de autoconhecimento. Afinal, o outro é um espelho que, de tão sincero, nos desmascara sem dó. Essa é a mensagem que o psiquiatra e psicoterapêuta argentino Jorge Bucay vem transmitindo há décadas aos casais que estão passando por crise. 






Segundo o terapeuta de casal, autor do romance, Amar de Olhos Abertos (ed. Sextante, escrito em parceria com a psicóloga Argentina Silvia Salinas), o relacionamento amoroso tem um grande poder: o de nos servir de espelho (sem o qual continuaríamos cegos sobre como realmente somos) e também de alavanca (para nos tornarmos quem verdadeiramente somos). "Não considero que a medida do amor seja o quanto estou disposto a me sacrificar por alguém, e sim o quanto estou disposto a desenvolver minha autonomia”, diz Bucay. Confira a entrevista:

Por que os relacionamentos amorosos são fonte de tanto prazer e sofrimento ao mesmo tempo?
Nada no mundo é totalmente bom ou ruim. Se quisermos desfrutar os prazeres proporcionados por um relacionamento, teremos de pagar o preço cobrado pelos momentos dolorosos. Eles são necessários porque nos mostram que nosso par não é exatamente como gostaríamos que fosse, e vice-versa. Acontece que, quando nos apaixonamos, acreditamos que o ser amado corresponda exatamente aos nossos ideais. Mas, com o tempo, abrimos os olhos, inevitavelmente, e descobrimos que o parceiro não é como o imaginávamos. Ele é o que é. Então, nós nos frustramos a cada vez que ele não age da maneira desejada. Isso dói. Os desencontros do dia a dia também nos machucam. Um quer dormir enquanto o outro quer ver TV. Um quer fazer amor, o outro quer dormir. E assim por diante. Essas pequenas decepções nos mostram que somos seres individuais, o que não nos torna bons ou maus, apenas reais.

No livro, você afirma que a relação afetiva é o grande espelho que reflete quem somos, nossas qualidades e defeitos. Como se dá esse jogo?
Quando os parceiros se conhecem, criam vários objetivos: desfrutar a companhia do ser amado, passar cada vez mais tempo juntos, construir uma família, compartilhar projetos. No entanto, há um objetivo que permanece, na maioria das vezes, inconsciente: que o meu companheiro facilite meu autoconhecimento. Não posso ver a mim mesmo. Para isso, preciso de um espelho. Ao longo da vida, encontramos vários, pelo caminho: a família, os amigos e, sobretudo, o ser amado. Aprendemos muito quando vivenciamos uma relação amorosa, pois temos diante de nós alguém que nos vê. Assim, podemos nos conhecer e nos aprimorar.

Quando sentimos raiva, por que é mais fácil acusar a pessoa amada, responsabilizá-la por nossa insatisfação, em vez de buscar o diálogo?
Ao apontarmos o dedo para alguém, outros três dedos se voltam em nossa direção. Se determinado defeito nos incomoda em uma pessoa, é porque também o possuímos. Como não admitimos isso, é mais fácil apontá-lo fora, e não em nós mesmos. As características que não temos não nos perturbam quando aparecem no parceiro. Só nos causa aborrecimento o que revela uma parte renegada de nosso ser.

A rotina é mesmo a grande inimiga do casamento?
Há, na verdade, um monstro de sete cabeças que ameaça os relacionamentos. A primeira cabeça é a idéia de que eu não posso viver sem estar enamorado; a segunda, a competição com o par; a terceira, a falta de projetos comuns; a quarta, problemas com a família do cônjuge; a quinta, a incompatibilidade de gostos; a sexta, antagonismo nas linhas ideológicas básicas; e a sétima, a rotina. Com criatividade e desejo, é possível driblá-la. O que é melhor? Trocar o marido ou mudar o dia, o local e o horário de fazer amor?

Não saber mais onde termina o eu e onde começa o “nós”, é inevitável numa vivência amorosa?
Essa noção vem do mito de que duas pessoas são metades que, juntas, compõem uma maravilhosa e incrível unidade. Eu, particularmente, prefiro ser inteiro e ter a meu lado alguém igualmente inteiro, para, assim, enriquecermos a vida a dois. Não podemos descuidar esse ponto e deixar de ser quem somos. Afinal, a maior riqueza de conviver é a possibilidade de abrir espaço para que ambos possam ser quem são. Muitas pessoas, infelizmente, acreditam que, para estar junto de alguém, precisam renunciar a si mesmos. Não considero que a medida do amor seja o quanto estou disposto a me sacrificar por alguém, e sim o quanto estou disposto a desenvolver minha autonomia. Não creio que a base da relação seja o quanto deixo de ser eu, e sim o quanto consigo ser eu mesmo quando estou ao lado de quem amo. 


A equação ideal seria: você está para mim, eu estou para você, e nós dois estamos para os outros. O problema é quando pensamos: eu estou para mim, você tem de estar para mim, e todos os outros também. No avião, vindo para cá, observei a aeromoça dar instruções para o caso de um acidente. Ela disse que deveríamos colocar a máscara de oxigênio primeiro em nós e depois na pessoa ao lado, pois só assim teríamos condições de ajudá-la. O mesmo se aplica ao amor. Não acredito que, para estar com alguém, seja necessário deixar de pensar em si mesmo.

Duas pessoas são metades que, juntas, compõem uma maravilhosa  unidade. Colocar tudo de lado para que o parceiro vire o centro de nosso universo é preocupante?
Essa é a manifestação da paixão. Fugaz, por natureza. O amor não é assim. Não há com o que se preocupar. É só uma fase. Precisamos ser complacentes com os amigos que estão vivendo esse momento de êxtase e, por isso, acabam se distanciando. É um período maravilhoso, mas não podemos ficar assim eternamente. Do contrário, não faríamos mais nada na vida, não trabalharíamos, não cultivaríamos as amizades. Passada essa onda, ou o sentimento se transforma ou acaba.

Um relacionamento considerado enriquecedor costuma apresentar quais características?
Uma relação saudável possui três pontos de apoio: o amor, a atração e a confiança. Eles são tão importantes que funcionam como uma mesa sobre a qual repousam os projetos comuns, o tempo compartilhado, a casa, os filhos, a família. Se existir ou não um quarto ponto de sustentação, não fará diferença. Agora, se um dos três sair de cena, não haverá a parceria; talvez, o matrimônio, mas não a parceria.

Como avaliar se vale a pena seguir em frente ou se é hora de terminar?
Não há uma regra fixa. Alguns dizem que o ideal é terminar a relação um pouco antes do recomendado. O que acontece quase sempre é a percepção de que existe um problema pessoal. O outro não serve para mim. Essa não é a verdade. O problema não está em um dos cônjuges, mas no tipo de vínculo estabelecido entre eles. Muitas pessoas se separam e repetem com o parceiro seguinte a história nefasta que viveram no passado. Acredito que os casais não devam se separar enquanto não tiverem esgotado todos os recursos disponíveis, e um deles é procurar um terapeuta especializado. É bom ressaltar que esse tipo de profissional não representa a promessa da reconciliação. Às vezes, ele só ajuda a mediar a separação.

Quais são os aspectos frágeis das relações contemporâneas?
Os pares discutem por muitas coisas e os temas diferem de acordo com a época e a cultura de cada país. No entanto, identifico algumas recorrências: as pessoas se desentendem por causa da criação dos filhos, da relação com a família dele ou dela, por problemas financeiros, por disputa de poder e pelo direito de ter liberdade. Sempre que me trazem essas queixas, penso no que está se passando entre o casal, e não fora.

A independência das mulheres ainda ameaça os homens?
Para mim, é uma condição básica ter uma mulher independente a meu lado. Estou convencido de que não é possível amar se não formos livres. No entanto, sei que há ainda muitos homens machistas no mundo. Homens e mulheres não são iguais. Somos diferentes, mas complementares. Todas as disputas entre os sexos são tristes, sobretudo a disputa pela liberdade. Alguns homens ainda dizem: "Eu sou capaz e você não é. Eu posso e você não pode". Isso é mentira. Nós homens somos muito mais dependentes do que as mulheres, principalmente no que diz respeito a assuntos de ordem prática. Um homem se separa e, três meses depois, está vivendo com uma nova companheira. Já a mulher permanece só, aprende a fazer consertos domésticos, a se virar sozinha e, em pouco tempo, está pensando: "Para que preciso de um homem nesta casa?"

http://mdemulher.abril.com.br/amor-sexo/reportagem/relacionamento/relacao-afetiva-grande-espelho-reflete-quem-somos-diz-jorge-bucay-623495.shtml
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