segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Conscientizar-se da própria sombra

A polaridade entre o sentimento de inferioridade e a vontade de poder...


“Vergonha, culpa, orgulho, medo, ódio, inveja, carência e avidez 
são subprodutos inevitáveis da construção do ego "eu". 
Eles estimulam a polaridade entre o sentimento de inferioridade e a vontade de poder. 
Eles são os aspectos da sombra da primeira emancipação do ego.” (Edward C. Whitmont)


Passamos nossa vida, até os 20 anos, decidindo quais as partes 
de nós mesmos  que poremos na "sacola", e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá.” (Robert Bly)

Medite sobre o que mais o incomoda em relação às pessoas. Não aspectos superficiais, mas algo que realmente você abomine, odeie. Talvez seja ingratidão, traição, injustiça, ciúme, medo ou impaciência. Reflita. Você já pensou por que odeia isso?



Será que aquilo que o incomoda em relação aos outros não é algo que está aí, escondido dentro da sua mente? Talvez tão escondido que agora esteja inconsciente?

Carl Jung dizia: "Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um conhecimento de nós mesmos".

Toda criança é total ao nascer. É inteira, mas no decorrer da vida começa a se dividir. Ela é influenciada pela sociedade, pela religião e pela família, começando a negar algumas características consideradas más. É a qualidade, o jogo do que é bom ou mau. Com a chegada da maturidade, ela já negou muito de sua personalidade real. Esconde uma parte de si, acha pecado, errado e sujo algo que é dela, e tudo o que é rejeitado fica escondido ou guardado no inconsciente.




Isso se chama sombra, é tudo o que negamos na busca absurda de sermos perfeitos para os outros, com um eu ideal. Um exemplo é a história "O médico e o monstro", do Dr. Jekill e Mr. Hyde. Dentro do bondoso médico ficava escondida a sua sombra, como o monstro, Mr. Hyde. 

Também encontramos exemplo da sombra no livro "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde. O jovem Dorian faz um pacto com o diabo para
sempre ter uma beleza impecável e assim todos seus traços de envelhecimento físico além de egoísmo, obsessões, crueldade, cinismo seriam transferidos para um retrato de sua imagem jovem e perfeita. Esse retrato é guardado e ninguém o vê, a não ser Dorian, quando curioso, e ele vê o retrato cada vez mais feio, repugnante e cada dia mais velho. 

Assim é a nossa sombra. Como Dorian, desejamos mostrar uma face harmoniosa, amável, inteligente, e escondemos os nossos verdadeiros sentimentos, aqueles dos quais você se envergonha. É claro que devemos procurar preservar de nossa sombra as pessoas com quem nos relacionamos, senão criaremos confusões todo o tempo. O que não podemos é negá-la para nós mesmos, até porque ela possui aspectos muito positivos.


Todos temos uma máscara, que é a imagem que passamos para o mundo. Na astrologia nós a chamamos de ascendente, que é como as pessoas nos veem, é nosso impulso, a personalidade adquirida com a vida e por meio da qual transmitimos aquilo que temos de melhor. Chama-se persona na psicologia analítica e é como gostaríamos que todos nos reconhecessem. Por exemplo: no namoro superficial colocamos nossa persona, enquanto num relacionamento mais profundo acabamos por mostrar nossa sombra.

Fazemos com que nosso eu se divida em três partes:

o "eu perdido" - tudo o que reprimimos para agradar "aos outros";
o "falso eu" - a imagem que criamos para agradar "aos outros";
o "eu negado" - a parte que "os outros" nos ensinaram ser negativa e por isso é negada.

São exemplos: egoísmo, raiva, desejos sexuais (reprimidos), vingança, "erros do passado", culpa (que não cria nada), traição, falsidade, desejo de poder, mentiras, nossas brigas com Deus / Deusa, "pecados", vergonha, etc.
    
É provável que você tenha a maioria dessas características e outras mais. E não é só você. Todos somos assim. Reconheçamos isso!

Jung sabia que a sombra é perigosa quando não reconhecida, pois projetamos nossos aspectos destrutivos no mundo e nos outros e somos inteiramente escravos dela até que domine nossa mente e passemos a pulsar somente ódio, tristeza, julgamentos, dor, reclamações, ressentimentos, magoa, indignação, inconformismo, etc. Começamos a ver defeitos em todas as pessoas, julgamos e enxergamos a sombra de nosso vizinho, da religião que não seja a nossa, de outra cultura, mas não vemos nossa sombra.




Muitas das "guerras espirituais" ou "religiosas" acontecem exatamente por isso. Vemos trevas em tudo e essas trevas são projeções do que temos em nosso interior. Atos impulsivos que depois geram arrependimento. Situações em que se humilham os outros. Raiva exagerada em relação aos erros alheios. Depressão quando se olha para dentro.

São Francisco de Assis era sombra e luz, mas escolheu o caminho de luz; Hitler era sombra e luz, mas escolheu o caminho da sombra. Hitler tinha a semente de Francisco, mas Hitler se tornou Hitler. Francisco tinha a semente de Hitler, mas se tornou Francisco. Francisco trabalhou sua sombra e tornou-se um mestre, que é ícone de compaixão, tolerância e amor à vida. Esse é um trabalho para toda a vida e, como recompensa, nos permite perdoar aos outros e a nós mesmos pelo que achamos mau, pois a compaixão e a tolerância iniciam-se conosco e expandem-se para o próximo.



A sombra é muito primitiva. Vem de um passado remoto, desde, talvez, o surgimento dos hominídeos. Está em nossa mente e corpo e é chamada também de memes. No livro O gene egoísta, Richard Dawkins diz que os memes são "núcleos de informação ou energia que têm vida própria, irradiam comandos, instruções, programas culturais e normas sociais para as pessoas" e se transmitem por meio de cultura, fofoca, religião, livros, filmes e tudo o que contribui para aumentar nossa sombra individual e cultural. A fofoca talvez seja um dos piores memes - a fofoca de dentro, a fofoca de fora.

O meme é algo tão poderoso que irradia sua influência de uma mente para outra de forma quase instantânea. É assim que as ideias se propagam. Da mesma forma como os genes estão para a genética, os memes estão para a memética. E assim como o DNA é o replicados biológico, o meme é o replicados cultural. Ideias sombrias e limitadas podem ser ensinadas pela escola (que também tem um lado sombrio):

Quando pensamos que temos uma ideia, na verdade são as ideias que nos têm. Faço essa colocação para que você entenda que muitas vezes somos hospedeiros de ideias, opiniões ou crenças nem sempre benéficas a nós, mas vantajosas a elas mesmas. E assim elas passam a formar nossa sombra. Quanto mais felicidade e criatividade adquirimos na vida, mais a sombra aumenta (Ex: INVEJA). Quanto mais luz, mais sombra e escuridão. (Ex.: O SUCESSO DE UNS, INCOMODA OUTROS) Todos os gênios da humanidade tiveram sombras muito fortes. Quanto mais luminosa a personalidade consciente, maior a sombra. Portanto, não projete sua sombra em outro. Perceba essas projeções, uma limitação sua.

Muitos pais se projetam nos filhos, exigindo aspectos de perfeição que eles mesmos não tiveram na vida.

Nossa luz e nossa sombra criam contradições em nossa alma. Qual caminho seguir? O que eu quero ou o que os outros querem de mim?

Todas essas dúvidas nos remetem ao nosso lado sombra, já que é ele que detém todas as chaves de nosso autoconhecimento, todos os nossos segredos.


Mas é bom não confundir a sombra com o ego negativo. Enquanto a sombra faz parte do ser real, pois nos faz olhar para nosso íntimo e nos descobrir na totalidade, o ego negativo é o ser idealizado e aquele que diz: "Não seja autêntico, seja aceitável". "Não se exceda, seja medíocre, seja normal." O ego muitas vezes nos ilude, mente, enquanto a sombra nos coloca diante da própria verdade porque ela sempre esteve conosco, desde o nascimento. E como sempre esteve conosco, ela se constitui de tudo aquilo que insistimos em negar e desconsiderar ou daquilo que nos recusamos a aceitar em nós mesmos.

Não agimos assim porque queremos, mas porque desde criança tivemos que nos adaptar para sobreviver. E fomos ensinados a esconder não somente coisas escuras, feias, que a sociedade diz que são pecaminosas, terríveis, imorais, mas também as coisas boas, por causa das mensagens que recebemos: "Não seja curioso"; "não seja tão honesto"; "não viva tão em contato com seus sentimentos"; "não seja tão criativo"; "não seja tão sonhador"... E assim fomos ensinados a construir nossa "autoestima". Por isso o lado sombra é tão rico. E é, somente penetrando na própria escuridão, que você poderá transformar-se, poderá transitar da antiga para a nova forma, livrando-se de seus temores e vergonhas, fracassos e dores. E, somente assim, poderá descobrir sua verdadeira força, seu poder, seus talentos e... sua alma.

Para sua reflexão, observe esta lista de valores paradoxais:

Valores que provavelmente você deseja de coração
Valores que a família, a religião e a sociedade exigem de você.
Sucesso
Humildade
Gula
Jejum / Moderação
Alegria
Dor (crescemos num momento de dor)
Facilidade
Sacrifício e Dificuldades
Sexo
Celibato / Monogamia
Dinheiro
Pobreza (nos leva para o céu)
Felicidade na terra
Felicidade nos céus
Trabalhar é prazer
Trabalhar é obrigação
Não fazer nada
Sempre fazer algo
Dizer não
Dizer sim
Ter privacidade
Deixar-se invadir
Eu sou o mais importante
O outro é o mais importante
Eu me amo
Amo o próximo
Ter liberdade
Obedecer às autoridades e aos mais velhos. mais velhos
O último pedaço de pizza é meu
O último pedaço de pizza é seu
Falo o que quero
Sou bonzinho para agradar
Tenho os meus desejos
Criança não tem querer
Gasto muito agora
Economizo para o futuro
Aventura
Segurança
Eu me trato da melhor maneira
Trato as visitas melhor que a mim
Faço o que quero
Obedeço
Dormir até tarde
Acordar cedo (Deus ajuda quem cedo madruga)
Ir ao parque de diversões
Ir ao culto
Reter matéria
Dar (vender tudo para doar aos pobres)
Possuir para gastar
Dar tudo aos necessitados

E agora? Qual é o seu caminho?
Tudo tão contraditório, não é?
O que é o bem o que é o mal?
Luz? Sombra? Certo? Errado?

Não existem respostas para essas questões, tudo é relativo, graças a Deus! Senão, qual o sentido de viver? O que é bom para você pode não ser para os outros e vice-versa.

Jung escreveu: "A triste verdade é que a vida humana consiste num complexo de opostos inseparáveis. Dia e noite, nascimento e morte, felicidade e miséria, bem e mal. Nem sequer estamos certos de que o bem superará o mal ou a alegria derrotará a dor."


Que tal encontrar um equilíbrio relativo entre aquilo que seu coração anseia e o que os outros desejam?

  • Faça uma lista de manifestações de sua sombra. Isso tudo que nega em si mesmo o inspirará a conhecer-se melhor - você é assim.
  • Enumere três atitudes que odeia que tomem com você.
Será que você também não se trata assim?

  • Um exercício muito interessante para trabalhar com a sombra é socar um travesseiro enquanto gritamos com ele.
  • Existem rituais de transformação nos quais, por exemplo, escrevemos em pequenos pedaços de papel algumas palavras e pensamentos perversos que estão pulsando na sombra e depois os queimamos. Seria algo como o sacrifício da própria sombra.
  • Outra maneira de também lidar com essa sombra é dançar, expressando na dança movimentos de empurrão ou socos, como se estivesse soltando alguma coisa dentro de si. Criatividade em todas as suas manifestações também "desreprimem" a sombra. O importante é não se reprimir. Mas também não tenha a intenção de cortar o mal pela raiz. É impossível cortar o mal, pois ele é uma parte de nós mesmos. Lembre-se de que é preciso olhar para "nosso mal", para nossa sombra e reconhecê-la.

Crianças que presenciam brigas entre os familiares ou situações limitadíssimas na vida, como fome, pobreza, analfabetismo, e a falta dos pais, expressam essas contrariedades em desenhos, o que é extremamente importante.

A sombra reprimida demasiadamente pode voltar-se contra nós, gerando vícios, autoflagelação, nervos à flor da pele, etc. Tenha coragem de se olhar para curar a própria sombra e não se sentir tão marcado pela vida, a ponto de não mais querer a felicidade. Sempre medite nisso, na coragem para olhar sua sombra, olhar seus conteúdos, nem sempre nobres.

"Quando as pessoas chamam uma coisa de bela,
Vêem outra coisa como feia.
Chamando outra coisa de boa,
Seu contrário se torna mau.
Porém, ter e não ter produzem um do outro.
Difícil e fácil se equilibram,
Longo e curto se completam,
Alto e baixo dependem um do outro,
Altura e tom formam juntos a harmonia,
Começo e fim se sucedem."
Tão Te King

No livro “ao encontro com a sombra” Ed. Cultrix - De Connie zweig e J. Abrams.
Temos uma reflexão profunda sobre os benefícios de aceitarmos ou reconhecermos (consciência) nossas sombras.

A aceitação da sombra
O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o nosso senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das nossas atitudes conscientes e as nossas profundezas inconscientes.


O romancista Tom Robbins diz: "O propósito de encontrar a sombra é estar no lugar certo da maneira certa." Quando mantemos um relacionamento adequado com ele, o inconsciente não é um monstro demoníaco; diz-nos Jung: "Ele só se torna perigoso quando a atenção consciente que lhe dedicamos é desesperadoramente errada."

Um relacionamento correto com a sombra nos oferece um presente valioso: leva-nos ao reencontro de nossas potencialidades enterradas. Através do trabalho com a sombra (expressão que cunhamos para nos referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra), podemos:

  • chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;
  • desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na nossa vida cotidiana;
  • nos sentir mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos senti­mentos e atos negativos;
  • reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros;
  • curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;
  • e usar a nossa imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o nosso eu reprimido.

Talvez... talvez também possamos, desse modo, evitar acrescentar nossa sombra pessoal à densidade da sombra coletiva.

A analista junguiana e astróloga britânica Liz Greene mostra a natureza paradoxal da sombra enquanto receptáculo de escuridão e facho de luz. "O lado sofredor e aleijado da nossa personalidade é aquela sombra escura e imutável, mas também é o redentor que poderá transformar nossa vida e alterar nossos valores. O redentor tem condições de encontrar o tesouro oculto, conquistar a princesa e derrotar o dragão... pois ele está, de algum modo, marcado - ele é anormal. A sombra é, ao mesmo tempo, aquela coisa horrível que precisa de redenção e o sofrido salvador que pode redimi-la."

"Prefiro ser íntegro a ser bom." (C. G. Jung)
“Sombra: chama-me de irmão, para que eu não tema aquilo que busco.” (Anônimo)
“Achar que tudo é positivo pode fazer com que neguemos nossa própria sombra e os aspectos egoístas e perversos.” (Otávio Leal)

Por Otávio Leal

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