sábado, 10 de maio de 2014

Mãe e Filho ...cuidado e excesso de zelo obsessivo e controlador


"Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes o vosso amor, mas não vossos pensamentos. Porque eles têm os seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas. Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos a ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós. Porque a vida não anda para trás e não se detém nos dias passados. Vós sois arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. o Arqueiro mira a senda do Infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas Flechas se projetem, rápidas e para longe. Pois, assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável" (Gibran Kalil Gibran - O Profeta)

Estes versos poderiam constituir a epígrafe de Mãe e Filho, de Calin Peter Netzer, um drama familiar romeno sobre uma mãe que não consegue abrir mão do filho adulto. Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013, Mãe e Filho é mais um nobre descendente da chamada renascença do cinema romeno.

É um drama familiar sobre os limites do amor materno e a ténue fronteira entre cuidado e excesso de zelo obsessivo e controlador.

Instinto Materno - Trailer Oficial - Legendado

O filme centra-se na relação disfuncional entre uma mãe e um filho. Quando Barbu (Bogdan Dumitrache), um homem na casa dos 30, atropela mortalmente um rapaz numa autoestrada nos arredores de Bucareste, talvez em razão de excesso de velocidade, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu), uma arquiteta bem relacionada e mãe super protetora, multiplica-se em esforços para salvar o filho da cadeia.

O problema é que Cornelia praticamente se substitui ao filho nesse afã, num excesso de zelo e voluntarismo inadequados perante alguém que tem idade para ser autônomo e resolver a sua vida. Mas a índole passiva de Barbu não facilita essa libertação. Cornelia é possessiva em relação a ele, como se sentisse que este é propriedade sua, apenas “alugada” ao mundo. Daí que os seus esforços para tomar o controle sobre a vida do filho sejam também uma forma abusiva de não respeitar o seu direito à autodeterminação, à independência e à emancipação. Cornelia é afinal, a seu modo, uma mãe tirana.
  
Temos assim uma protagonista pluridimensional, capaz de captar a nossa atenção, coerente nas suas próprias contradições, que à primeira vista parece ser essencialmente poderosa e autoritária, mas cujo poder deriva, acima de tudo, das suas próprias fraquezas. É evidente, de fato, desde o primeiro instante, que Cornelia ama o filho e que se preocupa com ele, mas só no final nos é inteiramente dado a entender que o medo de o perder (sendo ele a única coisa que ela tem na vida, como ela própria chega a admitir) consiste na principal razão para a obsessão claramente exagerada que ela tem por controlá-lo e para não o perder de vista

Incapaz de admitir o seu carácter obsessivo, culpa Carmen, a namorada de Barbu, por mantê-lo trancado em casa e de o proibir de falar com a mãe, e considera-se uma mulher frontal e honesta – na mesma conversa em que tentara convencer Carmen a manipular Barbu -, e como tal “uma mulher difícil”.

Na verdade, se o acidente de Barbu constitui uma oportunidade para a mãe “reaver” (recuperar) nostalgicamente o ascendente perdido sobre o filho, por outro lado vem facilitar a eclosão de um psicodrama familiar latente em que parece imperar um perverso conflito edipiano.



A psicologia explicaria provavelmente esta relação à luz do conceito de duplo vínculo, em que a mãe enviaria inconscientemente a mensagem “podes aventurar-te fora da nossa família mas nunca estarás tão bem como conosco”. O que é uma outra forma de dizer que Cornelia quer uma relação de exclusividade com o filho, sem “intromissão” de mais ninguém, ela que, por sinal, se intromete demasiado na sua vida, obtendo dele uma natural reação de fuga. Mas a verdade é que amar um filho é também, a certa altura, deixá-lo ir e viver liberto da ilusão onipotente (cujo poder é absoluto) e obsessiva de controle.
  


O título inglês de Mãe e Filho, Child’s Pose, refere-se a uma posição de descanso do ioga. Como se, esgotado pela dominação materna, Barbu se remetesse a uma passividade que acalmasse a sua ansiedade, embora correndo riscos nesse quietismo.




Mãe e Filho é um drama psicológico de um realismo impressionante, com uma interpretação contida mas pujante de Luminita Gheorghiu. E a cena final, quando Barbu, dentro do carro à porta da casa da família enlutada, diz à mãe “por favor, solta-me” (pedindo-lhe para abrir as portas), é devastadora de força simbólica.



"A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas." 
(Rudolf Steiner)
  
(Texto originariamente publicado na edição de 30 de março do Diário de Notícias)


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