segunda-feira, 30 de abril de 2012

Disponibilidade para Amar, Você têm?



Valentine’s Day - Dia dos Namorados

14 de fevereiro é uma data em que se comemora, nos países anglo saxônicos, o dia da “união amorosa”, ou seja, o dia dos namorados. Somente em Portugal e no Brasil esse dia é comemorado em 12 de junho. São Valentim foi um bispo que lutou contra as ordens do Imperador Claudio II, ordens que proibiam o casamento durante as guerras, acreditando que os solteiros eram melhores guerreiros. Tempos depois, o bispo se casa secretamente. Sendo descoberto pelo Imperador, foi preso e condenado à morte. Diz a lenda que Valentim antes de sua morte teria escrito um bilhete para a filha cega do carcereiro, sua paixão, e que milagrosamente devolveu-lhe a visão. Nesse bilhete ele assinou como “seu namorado” e “De seu Valentim”. Numa outra versão, do sec.XVII, os ingleses e franceses passaram a comemorar o dia de São Valentim como o dia Dos Namorados. Anos após, essa data ficou célebre nos Estados Unidos como o Valentine’s Day.

Namorar parece um verbo muito temido hoje pelos jovens. Namorar, ao contrário do Ficar, é uma relação mais profunda, de maior disponibilidade afetiva, de intimidade e compromisso. O namoro, que na maioria das vezes acontece após uma paixão, é uma experiência idealizada necessária e fundamental para que duas pessoas exercitem seu lado afetivo.

Entretanto, requer coragem e ousadia de colocar às claras a vida dos afetos: amor, paixão, ciúme, rivalidade e principalmente capacidade de lidar com as diferenças de cada um. Namorar pode ser o prelúdio do noivado, e esse, a perspectiva de um casamento ou de uma relação estável mais duradoura. 

Acontece que o medo de amar é hoje uma marca da civilização pós moderna. Uma civilização do ter e não do ser, uma mentalidade consumista ao extremo, inclusive o consumo às pessoas, como se fossem drogas. O prazer pelo prazer é a regra atual. Ficar, ter relações casuais, fortuitas, passageiras, que promovam somente satisfação, e que não tolerem nenhum tipo de sofrimento. Parece que as pessoas jovens estão predispostas a negarem sua capacidade de tolerar a dor, a dor psíquica, a dor da desilusão, implícitas em qualquer relacionamento amoroso.

Seria uma boa reflexão, nesse Valentine’s Day ou Dia dos Namorados, o jovem entender e examinar em si mesmo como está sua capacidade inata amorosa. É claro que se possível, na vida nos afastemos da dor, mas por outro lado, a experiência dolorosa ensina, faz crescer e desenvolver o indivíduo a fazer frente aos seus conflitos. Lidar com ciúmes, por exemplo,  não como um sentimento passional da posse, e sim como um sinal do medo à perda de alguém que se ama. Tolerar as diferenças é outra capacidade interessante e imprescindível para mantermos um relacionamento. Na igualdade, na mesmice, não há conflitos e não existe muito a se fazer para expandir a relação. Na diferença sim. 

Quando encontramos ou pensamos ter encontrado o amor de nossa vida vale tudo ou quase tudo. Sim,  muitos pensam que é assim! E sob este pretexto passionalismos, brigas, discussões, ciúmes exagerados e outras  "provas de amor" passam a ser aceitas quase sempre pelo medo de um perder o outro. Ou dos dois se perderem, mutuamente. E tudo passa a ser desculpado e visto como mais um  tempero que alimenta a relação. Com ambos esquecendo que se não houver cumplicidade na relação esta poderá acabar em curto espaço de tempo. Pois a paixão não resistirá aos dias que virão. Mas, certamente isso acontece porque muitos não desejam descobrir nem aceitar que possuir de forma física e material não significa um verdadeiro amor. E pensar que se pode ser ou pretender ser dono do outro nada tem a ver com sentimentos construídos para crescerem nem durarem. Esquecem que agir como se um fosse dono ou propriedade do outro pode ser agradável para um mas, certamente, não o será para o outro! E numa relação tal comportamento pode apressar o seu final.

A diferença é inevitável, uma vez que ela vai aparecer à medida que a paixão abranda. E aí veremos se alguém gosta realmente de outro! Gostar, dizem os filósofos e psicanalistas, é também saber odiar sem destruir. É poder manter uma relação sem a obrigatoriedade de ser uma relação idealizada. É fato que procuramos o nosso ideal no outro, daí os termos, “alma gêmea”, “minha cara metade”. Entretanto, só sabendo incluir as diferenças é que podemos respeitar considerar e amar uma pessoa.

Diga-se de passagem, é claro que as diferenças precisam ser menores do que as realizações satisfatórias! No entanto, hoje em dia, as pessoas não têm paciência com o desenrolar de um namoro. À mínima frustração, ao primeiro desapontamento, a relação é desprezada, ou melhor, a outra pessoa que deveria ser um parceiro ou uma parceira, não interessa mais. “Já fui, dizem os jovens, não me interessam problemas, conflitos, frescuras de conversar sobre a relação, o importante é o prazer pelo prazer. É curtir, sair, beijar, amassar e transar”. Isso é a antítese do namoro. O namoro não despreza a sexualidade, pelo contrário, é nessa relação que se vai integrando afeto com sexualidade, corpo e alma.

 “Eu não consigo me apegar a ninguém, eu tenho medo de me envolver e me aprisionar. Sou desconfiada, sou desacreditada do amor dos outros por mim. Sinto um vazio, um vazio enorme e nada me satisfaz. Como posso mudar? Como posso sentir alguma coisa mais duradoura? Parece que não ficou nada dentro da minha pessoa desde criança.” .

Depoimento como o dessa jovem, ouvimos cotidianamente em nossos consultórios, como um grito de dor, um desabafo, de quem sente medo de se apaixonar e de que se apaixonem por ela, de quem não está disponíveis para Amar e ser Amada.

Freud afirmava que o Eu antes de tudo é um Eu Corporal, mas com o crescimento ele vai se tornando um Eu mais integrado, corpo e afeto. É isso que o namoro pede como compromisso - afetuosidade e sexualidade juntos, no sentido de desenvolver uma relação amorosa e não uma “relação vazia e sem sentido”, estritamente corporal
. 


"Estranho, sim.
As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados.
Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno.
Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.
Se o Amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura.
Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem."

Lygia Fagundes Telles

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